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Sexo

19/02/2006 - 22h06

Megashows: o grito dos excluídos

Encontrei o Armandinho, aquele meu amigo machão e influenciável por tudo e todos, na fila para assistir ao “Match Point” (aliás, que obra-prima, hein amigos? Não tem pra ninguém, é o velho e trágico Woody na cabeça e coração).

Bom, o fato é que mesmo antes de se angustiar mais um pouco com os crimes e nenhum castigo do diretor norte-americano, meu dileto companheiro já estava com os nervos em frangalhos. Prefiro abrir o discurso para a nobre e sufocada criatura:

“Careca, estou em desespero. Pretendo sair de casa apenas depois que os moleques do U2 deixarem o solo nacional. Estou atordoado de tanto ouvir as palavras “megashow” e “evento imperdível”. Não fui ao Rio conferir as cenas de Mick e seus micos amestrados. Também não pretendo me aproximar do Morumbi para ouvir os irlandeses cantarem a paz e as histórias de domingos sangrentos. Ou seja: sou um pária. Segundo as folhas e o casal telejornal, não existo nesses dias. Um homem isolado de seu tempo. Não sei o que fazer. Ou melhor, resolvi esperar a tempestade passar. Tenho que ir… Daqui a pouco me isolo, tendo como companhia cerveja, pizza e o tele-sexo. Até quarta, depois que esse carnaval passar.”

Pobre Armandinho que sofre da pior doença dos dias atuais: a síndrome da exclusão do mundo pop. Um treco contagioso, espalhado pela imprensa e por amigos que insistem num mundo dominado pela cultura popular ditada pela moda. Um círculo vicioso e altamente daninho, caso você não tenha tomado vacinas em outras leituras, sons e visões.

Nem consegui dar algum remédio ou paliativo ao melancólico Armandinho. Certo, só falaria pra ele mentir um pouco e escapar das chacotas. Diga que vai ao estádio, mencione problemas no trabalho para justificar sua falta ou enterre novamente sua avó. Mas demonstre interesse para evitar a rejeição.

Não há coisa pior em algumas camadas da sociedade do que ser excluído do mundo pop. Sorte têm milhares de brasileiros que, por estarem em outros Estados ou serem pobres mesmo, já possuem uma frase feita para justificar a ausência nos megashows.

Se isso serve de consolo Armandinho, também sou um desses que não tem saco para ir ao Rio e dividir a areia com mais de um milhão de pessoas. Nem pretendo sacar meus ouvidos e paciência para comprar ingressos e curtir o RPM do mundo globalizado.

Também sou um excluído. E a coisa deve ser boa mesmo, porque o maior jornal do país publicou no domingo (19) uma entrevista com o Bono realizada por uma revista gringa há mais de QUATRO meses (excelente e atualíssimo jornalismo, não?).

Tenho CDs das pedras rolantes, vibrei nos shows do Pacaembu, sei cantar alguma coisa do U2 e já vi shows de bandas covers de ambos em puteiros do interior. Mas não fui e não vou aos espetáculos. Por simples opção. Sei lá, não estou com vontade. Só.

Como o Armandinho, sou olhado torto nas ruas, tratado com deboche e fui até chamado de “comunista fora de época” (também não entendi). Uma amiga disse que finjo desinteresse apenas para chamar a atenção. “Isso é despeito. Não tem nem curiosidade? Falou… Despeitado!”, um colega bradou sob aplausos.

Desculpe, meus queridos. Acho absolutamente desinteressante esse negócio (e bote negócio nisso) todo. Por esses dias, sou um excluído, um doente, igualzinho ao Armandinho.

A minha esperança é que nas noites de segunda e terça mais gente se junte a nós, para tomarmos os bares e as cidades, feito zumbis da madrugada dos mortos, em busca de almas que também desperdicem a opinião da massa. Pois é assim que me sinto: um zumbi de olhos vidrados sem cérebro ou coração.

Nada contra. Mas vocês não acham que tem uma turminha de exagerados por aí? Nos dias que se seguem, sou menos humano porque não sou pop. Tentarei ao menos comprar em camelôs alguns óculos escuros de mosca parecidos com os do ídolo. Assim, escondo minha vergonha.



por Careca

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1 Comentário »

2006-02-20 00:23:49

ahhh exageradooooo
eu vou no show :P
careca deixa de ficar com pensamento de avo hein…rs
q negocio eh esse de morto, zumbi…eh mais facil vc operar as amidalas…rs

 

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