Sexo
24/02/2006 - 14h02
As verdadeiras deusas do Carnaval
 Ai, ai, aiiiii, tá chegando a hora. Não, não o momento de ganharmos a Copa do Mundo pela sexta vez, como anunciou o missionário Bono (ex-Vox), mas sim o glorioso instante do Carnaval (que, pasmem, diz o doutor Pasquale que significa “se afastar da carne”!).
E quando abundam mulheres, cinturas finas e peitos prontos para amamentar uma multidão, penso sempre em recorrer e correr ao sítio do meu recluso tio Seu Noronha. Pois bem. Liguei para o nobre parente e ele se lembrou das marchinhas de antigamente e soltou um arrazoado em desagravo a todas aquelas que se sentem excluídas (de novo esse treco de exclusão…) da festa. Eis o palavreado na íntegra. Eu apenas disse: tio…
“Seu crápula. Aposto que também está roendo as unhas do pé na esperança de ver as formas perfeitas das mulheres que pulam a folia de Momo. Deve estar aí, ajeitando o babador e acendendo velas pelas Globelezas que adornam as telas.
Pois quanta ingratidão para com os pequenos defeitos do dia-a-dia. Quanto desprezo pelo cotidiano. Lamento informar, mas essas deusas das baterias, essas Juliana Paes das avenidas, essas mocinhas robóticas e alegóricas só funcionam nesta época. Depois, a Duracell acaba e as coelhinhas murcham e voltam para suas gordurinhas. Em suma: nos outros 361 dias do ano, o negócio é louvar nossas Marthas Rochas.
Pensei nisso ao ler um artigo recordando as duas polegadas a mais que supostamente tiraram o título de Miss Universo da nossa mais perfeita pequena. Hoje, sabemos que a notícia toda foi inventada. Mas que ela tinha uma diferença de tamanho entre os peitos e a cinturinha de pilão, isso lá tinha.
Meu sonho é realizar uma fantasia de carnaval apenas com Botterinhas, com essas daí que andam escondendo o jogo, camuflando a beleza em ruas escuras, participando de tudo quanto é festa, menos a do pierrô. Até o canastrão do U2 deu uma bitoquinha na Katilce, garota sem medo das coxas grossas.

Na minha ala das baianas, só entrariam aquelas com pneus abastecidos de acarajé, dendê e muito “Oxalá meu rei”. Na comissão de frente, faróis pequenos, médios, miúdos, caídos e alterados pela força de Newton. Único quesito obrigatório: os seios têm que ser originais, com selo de garantia e beleza de fábrica. Como destaque nos carros alegóricos, nossas namoradas, mulheres, mães, amantes, esposas, concubinas, meninas da rua, do asfalto, do morro, da vida que exalam verdade.
A letra do sambinha falaria sobre elas e pediria um pouco de compreensão no Carnaval. Deixem as outras, as estranhas e perfeitas estátuas de sal, brincarem um pouco, porque no resto do ano, só dá as nossas pequenas nas paradas de sucesso.
Deixo aqui uma lágrima para as que se iludem com o outdoor da academia e insistem em ajeitar tudo, passar cimento e cal nos deliciosos defeitos da existência, apenas para estampar uma falsa alegria com poucos dias de destaque.
Ora, e a gente cara-pálida? E as Marthas Rochas que nos acolhem, nos dão de comer, tratam de nossas febres, acalmam os nervos da pele e dos músculos e sabem que tudo já era na manhã de quarta-feira?
Para cada rainha de bateria, uma centena de Marthas Rochas está aí, escondendo com vergonha as suas duas polegadas (pra quem não sabe, quase 5 cm). E que generosas… Aplaudem e vibram, pois sabem que todo o resto dos dias, da Páscoa, do Natal, da alegria, pertence na verdade a elas. Nossas mulheres perfeitas.
Meu samba é pra vocês, longe das capas de revistas, do noticiário da folia… Meu samba e minha homenagem para todas aquelas que admiram suas duas polegadas e entendem que a vida exige muito mais alma do que carne. E viva o Carnaval.”
por Careca
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belissimo!!!
aplausos da arquibancada do samba
Vocês merecem, vocês merecem… Beijos da avenida.
Careca, maravilhosa sua cronica. Estou brincando o carnaval carioca feliz, feliz. Nao saio do meu bairro: Laranjeiras, nao e preciso. Todos os dias tem um bloco onde a gente bate o olho e se reconhece. Os de fora sao benvindos. Isso que aparece na midia, essa trajedia que vivemos e se escancara em Copacabana “a Surfistinha do Mar”, como sabiamente escreveu Aldir Blanc, reflete o circo dos horrores promovido pelo descaso goveranmental e o interesse de grupos, muito poderosos. Tenho 50 anos e aqui suas Deusas do Carnaval, aquelas do cotidiano, brincam muito felizes com seus maridos, namorados, filhos, amigos ou sozinhas. Felizmente, cercadas por jovens e crianças belas, nao tao belas e mais que tudo felizes.
nossa, perfeito!!!
homens devem valorizar mais as belas “pequenas” que tem em casa!
artigo louvável
