Dia 14 de março é o Dia Nacional da Poesia. Quando o assunto é este, eu me sinto com a síndrome de Asperger. Não consigo ler as entrelinhas, sofro com as metáforas, não entendo a diferença entre o carteiro e o poeta e sempre quero saber afinal de contas quem é o mocinho da história.
Não que eu não goste. Macho que é macho adora poesia. Mas não consegue entender patavina. Isso porque pra ele há apenas três grandes temas que mereçam linhas poéticas: futebol, mulher e cerveja.
Aí surgem os problemas. Quando pensamos num Corinthians e São Paulo e sua carga dramática… Começamos a xingar logo o goleiro e o juiz. Tchau poesia.
Quando pensamos numa mulher realmente deslumbrante, digna dos nossos sonhos, companheira e… Começamos a tirar a roupa. Tchau poesia.
Quando pensamos num copo gelado lotado de uma cerveja na temperatura certa, com um colarinho na medida… Começamos a encher a cara. Tchau poesia.
É complicado demais buscar abstração no mundo dos machos.
Sou humilhado pelos poetas. Eu confesso: não consigo entender ou me emocionar com 90% dos poemas. Sou uma fraude, eu sei. Não devem existir outros como eu. Tirando as sacanagens do Vinícius (que soam sempre como música, então fica mais fácil) e as porradas do Leminsky, sou um analfabeto das rimas.
Todos nós sabemos que esse gênero foi inventado por alguém que era muito mais esperto do que a gente e não estava com, digamos assim, vontade de pegar no pesado. Então, ele descobriu que misturar a linguagem, coisa que demoramos anos pra desenvolver, poderia ser uma boa para ocupar o tempo dos outros.
Quando ele sacou que dava pra pegar mulher com o truque, aí a coisa fluiu de vez. Imaginem que a situação foi mais ou menos essa:
Antes da poesia
Minha carruagem está com um problema na roda, por isso chegarei atrasado ao compromisso.
Depois da poesia
Roda… Roda… Rodou. Oh, céus, por que a carruagem insiste em não realizar seu percurso? Será que ela faz de propósito, sabendo da minha ânsia por te encontrar? Roda… Roda… Quebrou. E meu amor mais uma vez tem que esperar o mecânico chegar.
Guardo “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século” num lugar de destaque, como se fosse minha “Bíblia”. Todos os dias viro uma página e leio, numa espécie de penitência, para que sempre eu lembre da minha ignorância.
Os poetas me colocam na lona, de onde jamais deveria ter saído. Minha empáfia em explicar o mundo, meu desejo de ser mais inteligente do que os outros, nada disso sobrevive ao meu choque diante de uma poesia.
Em resumo: poesia é o espanto diante da vida.
PS: Umas linhas pra vocês entenderem como não existe poesia por aqui.
ELAS
Gisele é o andar
Vera o olhar
Luma o rebolado
Luana a graça
Luciana a sacanagem
Você a morte
então que poesia não precisa efetivamente de verso. está no uísque, no sexo, na padaria, no cinema e até no futebol. desencana disso. o texto é mera formalidade. quem se basta em vinícius e leminski não precisa de outras religiões. lembre-se do que disse nelson rodrigues: “Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. ? preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.”
então que poesia não precisa efetivamente de verso. está no uísque, no sexo, na padaria, no cinema e até no futebol. desencana disso. o texto é mera formalidade. quem se basta em vinícius e leminski não precisa de outras religiões. lembre-se do que disse nelson rodrigues: “Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. ? preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.”