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Rock'n roll

17/03/2006 - 17h44

Show de rock é isso aí

“É dez, é dez, é dez, é dez real”, são as primeiras sirenes de aviso: o show tem que começar. Milhares deles, feito gafanhotos anunciados em uma das pragas. Eles se amontoam pra guardar aqueles faróis. Mariposas na luz gritando “é dez, é dez, dez realllllll pra estacionarrrrrrr”.

Show é isso, meus queridos. A busca por um lugar lá fora e por outro lá dentro. Sim, não há onde parar. A frase soa estranha, mas, sim, não há. Parece peregrinação. Sem esse esforço, essa cruz, esse transtorno, essa fila, esse perigo, esse fardo, parece não existir redenção quando finalmente o sujeito de cabelo tigela invadir o palco.
Uma morena de lábios grossos, camiseta fina, olhos de peruana, uma Tiazinha sem chicote, abre os vidros da Blazer preta e grita para o cidadão fardado de cinza: “Ei, seu guarda, cadê o estacionamento?”. O moço da lei dá um sorriso de gato de Alice, safado, pensando que o “gato comeu, minha filha, siga seu curso e pare onde der. Com sua cara de anjo com muito sexo, não há azar que possa te pegar nessa vida”. Mas o sujeito responde: “Xiii, acho que não tem, não”.

E a donzela acelera os seus duzentos cavalos, afoita, gritando pra dentro: “Só no Brasil, só no Brasil!”. Enquanto isso, o trânsito pára, os homens de amarelo representando a ordem começam a apitar. Todos juntos. Uma bonita sinfonia rasgando tudo enquanto o show não vem. É dez, priiiiiiii, é dez, priiiiiiiii, bibi, priiiiiii, é dez pra estacionar, é dez, bibi, priiiiiiii, reallllllllll.

Faltam minutos para os ingleses finalmente mostrarem pra que serve o britpop. E muita gente continua lá fora, argumentando, pensando: “Por que catso inventaram o automóvel mesmo?”. Enquanto isso, a vida pulsa do mesmo jeito de sempre nas casas de um bairro daqueles de novela da Globo. Um aglomerado de tijolos inspirando segurança, conforto e um DVD rolando numa TV de plasma (ou LCD?) com o mesmo show que todos estão chorando pra ver ao vivo.

Na calçada, um bar. No bar, uma mesa. Na mesa, quatro jogadores. Nos jogadores, a vontade de bater logo aquela rodada, jogar os dominós para o alto e pedir a boa. Os jovens com camisetas de bandas, com os cabelos pra cima, espetados, passam, mas não reparam. Os jogadores continuam. Também não sabem que grupo é aquele. Afinal pra que serve o rock? Baderna. “Vamos jogar, cacete”, implora um deles. Sim, mundos separados. Sempre.

O show, meus queridos, está na nossa cabeça.

A passagem por cercas, cercados e cerceamentos. Na mão todos ostentam a bandeira, o ingresso para uma possível comunhão. Vão passando os cordeiros. Todos já devidamente tosquiados, com os bolsos vazios, assaltados na compra do bilhete. E vão seguindo as ordens das mocinhas (“que delícia”, uma ovelha se insinua) e andando, trotando para o curral do show.

Show, meus queridos, é isso aí. Coca-cola gelada goela abaixo. Cheio de mistério, fórmulas mágicas, com gosto amargo do imperialismo e deliciosamente refrescante. Show é isso aí.

Todos começam a procurar o palco. O lugar é imponente, grego, barroco, meio Bilbao, meio ondas daquele domo de Sidney. Cool. Mas esqueça. Você, meu amigo, vai usar apenas a estrutura pra soltar os líquidos, dar descarga. O show é fora. No estacionamento. Cabe mais gente. Rarararara. “Essa merda toda aí e o treco é no estacionamento? Fina ironia.”

Sim, a voz do povo… Bom, complete o ditado. Não há onde parar o possante porque o show, minha gente, é no estacionamento.

Arrastada, a multidão percebe o surgimento do templo. Dois telões propagam a imagem dos astros. Luzes azuis, amarelas e vermelhas. Instrumentos. Só.

Lá fora, mais gente gritando “é dez, é dez”. Dentro da pirâmide, cerveja por cinco reais e vodca (“acabou faz tempo”) por oito contos. Um drinque no inferno? Sim, até os cavaleiros do apocalipse assaltarem o ar.

Show é isso, meus queridos, um som no ar, um cheiro daquele mato do Bezerra da Silva, um pega-pega, um beija-beija, sobrancelhas cerradas em busca de uma luz no fim do palco, um pula-pula, um gole-gole, um cheira-cheira até que pum. Som na caixa, mané.

Show de rock. Simples assim. Contrariando qualquer lógica, provando que programa de índio é bom e eu gosto. Música. “Do grande caralho”, o gordinho ao lado grita e olha para o céu. Para o céu. E para o palco. Deuses.

Então, o milagre. Chove. Torrencialmente. Gotas gordas, que machucam. E todos pulam felizes, lavando ninguém mais sabe qual sentimento. Chuva, rock, suor e cerveja. Sem ordem nenhuma. E eles saltam e cantam como sapos. Coaxam. E cantam. Sapos e pererecas.

Ah, e os vaga-lumes. Milhares. Celulares acesos no meio da floresta, tirando fotografias, ansiosos pra controlar o futuro. Flash. E cantam. Meus queridos, que espetáculo é um show de rock.

A banda vai. E volta. E o cara que diz coisas bacanas no microfone fica embasbacado. Feliz, com as duas mãos nos bolsos. Comanda a sinfonia dos sapos, lembrando cenas lindas de “As Bicicletas de Belleville”.

O gordinho começa a cantar num microfone imaginário. A menina de cabelos enrolados vira pra trás e beija o garoto sarado sem camisa. A mãe bate na cabeça do filho e pede mais energia. O grupo tenta provar que água mole em pedra dura… E acende mais um cigarro de maconha. Duas meninas flertam e se agarram com vergonha. ELE NÃO PÁRA DE PENSAR NELA. Todos parecem chorar e implorar pra vida ser sempre assim. Até que um berra: “Toca Raúl… Toca Raúl”. E eles riem e se abraçam e gritam: “Por que a vida não é sempre assim, porra?”.

Show de rock é isso, meus queridos. Um pular no mesmo lugar. Um se molhar de tesão, um ruído de esperança cortando tudo. Música.

“É um, é um, é um, é um reallllll”, assim gritam no final de tudo. Liquidando os estoques enquanto a multidão se retira. “É um, é um, é um, é um reallllll a águaaaaaaa.” E acabou. Começa dez e acaba um.

Isso é um show de rock, meus queridos.

Fim. E não tem bis.



por Careca

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