
Convenhamos, para lidar com bandido o sujeito há de ter no mínimo jogado bola na rua e não me venha com campinho de condomínio, que aí não vale. A beleza do futebol está na diversidade: malandro, vagabundo, trabalhador, maconheiro, proxeneta, moleque, playboy, gay e velho. Você encontra de tudo em campo, mas desde que o campo não seja em condomínio, certo?.
O que esperar de parte do comando da segurança pública em São Paulo, um monte de gente, que talvez a maior aventura tenha sido roubar o carro do pai para dar uma volta no condomínio. Gente que durante sua iniciação sexual, ou o já mundialmente famoso troca-troca, sempre ia primeiro e depois ficava com a calça na mão porque a molecada mudava de brincadeira e ninguém cumpria a palavra.
Negociar com bandido há mais de uma década, deu no que deu: “Pânico em SP” (aliás já foi título de música). Autoridades, por favor, os bandidos são sacanas como os seus coleguinhas de troca-troca na pré-adolescência. Pensem, afinal pré-adolescência só serve para uma coisa: aprender.
Bom, tudo isso é para dizer que apesar do absurdo da maior cidade da América Latina ter parado e assistirmos cenas dignas de “Day After”, não me conformo com a morte de mais de três dezenas de policiais, que diferentemente de seus chefes, jogaram bola na rua e sabem que malandro não tem palavra e que se você oferecer uma pizza ao vagabundo e ele pedir um X-Picanha, vai passar fome ou imaginar que está comendo sanduíche enquanto mastiga uma deliciosa redonda de muzzarela.
Só quem cresceu em um bairro operário, como eu, sabe a força que esses jovens policiais fizeram para não ceder ao crime, que aliciava por meio do seu vizinho de carrão, o banqueiro do bicho cheio de ouro ou o “bom da boca” rodeado de mulher bonita. Crescer, seja da Radial Leste em diante ou do Shopping Interlagos para lá, é duro.
Até hoje, como jornalista ainda trabalho com muita gente, como as nossas autoridades, que foi fazer jornalismo para corrigir o mundo, mas nunca pegou a Radial Leste até o fim para ver o que ele tem de errado.
Não aceito ver o meu povo passar por isso, sim digo meu, porque ele tem rosto, endereço, tem e são filhos, esposas ou maridos de outras pessoas e tudo isso é muito diferente do povo representado pelas estatísticas frias do governo e mais ainda distante dos números da manchete dos jornalões.
Não aceito sair do meu trabalho mais cedo, não aceito a lógica da violência indiscriminada , assim como não aceito a lógica de muitas ONGs e setores pseudo preocupados com os direitos humanos que vivem repetindo que faltam políticas sociais.
Não é a falta de políticas sociais que gera explosões de violência, pois no nosso país elas faltam ao borbotões e se o meu povo seguisse esta lógica, há muito já haveria tido uma revolução e muitos dos corruptos que hoje fumam cubanos e bebem vinhos franceses cotados em dólar, teriam sucumbido na forca ou quem sabe na guilhotina.
É a falta de gravidade, exemplos e solidariedade que cria monstros dispostos a tudo para ter a roupa de marca, o tênis da moda, em uma espécie de ciclo vicioso e odioso que gera mais e mais exclusão e torna a base da pirâmide uma massa disforme e envergonhada por ser ela mesma, incapaz sequer de se olhar no espelho.
De fato, está cada vez mais difícil fazer piada em um país tão ingrato com quem é responsável pela criação de sua verdadeira riqueza: sua gente!
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