
E nosso Ronaldo Nazário vive o último ato de sua tragédia de forma impávida e colossal. É por essas e outras que sinto a falta de sir Nelson Rodrigues. Se vivo fosse estaria aplaudindo de pé e gritando “urras” a cada pernada dessa personagem clássica e visceral. Só mesmo nosso maior dramaturgo poderia ter a consciência e dimensão da grandeza do espetáculo oferecido pelo Fenômeno.
Enquanto isso a imprensa fica aí, com a baba bovina do espanto escorrendo até o peito, apenas malhando e ruminando a performance do Marlon Brando dos gramados. Gordo e careca. Ora, o sujeito já tem todos os adjetivos suficientes para ser escalado em qualquer esquete e escrete.
Uma marca de cerveja (cá entre nós, nenhuma Brastemp) prega para ficarmos com a Costa do Marfim até onde der. Putz, putz. E o Ronaldão lá, nosso elefantinho milionário, implorando carinho… Chega de brindar a derrota dos outros. Eu lanço aqui o manifesto “Até onde der com o Ronalducho” e pimba no gorduchinho. Danem-se os meninos de Marfim. Abra mais uma, aquela boa, em homenagem ao nosso craque.
Um outro comercial não pede para que o jogo fique redondo? Então. Aproveitemos o Ronaldo, caramba.
Assim como aquele garotão, o Luke Skywalker, que empunhava um sabre elétrico em “Guerra nas Estrelas”, Ronaldo também desceu até o pântano do esquecimento, encontrou o Felipão Yoda, subiu novamente ao poder, virou o salvador, mas agora descobre que seu pai (nós? a imprensa? Ricardo Teixeira?) é um cafajeste do mal, um Darth Vader da bola. Jogado nas trevas, ele está pronto para fazer um gol contra e vestir a camisa do lado negro da força.
Alô, alô, velho guerreiro, aquele abraço. Alô, alô, torcida do Real Madri, aquele abraço. Vamos salvar as baleias e tirar o gênio da pelota do fundo do mar de lama. A unanimidade é burra. Deixem o Galvão pra lá e aplaudam o brasileirinho parrudo.
Uns passes tortos, um vagar pesado e triste, uma modelo cheia de paixão e gritando por carinho… Será que são motivos para jogarmos o menino para escanteio? A Copa do Mundo na Alemanha se orgulha de patrocinar a amizade. Mas, por esses lados do paraíso, começa a semear a discórdia.
Não quero aqui pregar o fim da seleção, o início de uma caridade e o término da competição. Longe de mim deixar o Nazário em campo apenas para cumprir a cota dos carecas e gordinhos. Nada. Apenas peço (e neste momento me ajoelho em cima da bola de couro da minha infância) um “viva” de esperança por tudo o que o moleque Ronaldo fez pelos campos do planeta.
Uma personagem do Jô Soares espantava o mau-humor num programa antigo com o bordão “bota ponta Telê”. Era a eterna briga dos brasileiros com seu técnico da seleção canarinho. Chegou a hora do coro: “bota Ronaldo, Parreira”.
Meu consolo (sem duplo sentido) é que o craque sabe dessas coisas. Entende que os heróis morrem de overdose, são crucificados, espancados, traídos por suas pequenas e jogados ao mar. Se fosse apenas mais um, Ronaldo estaria em Brasília, batendo cartão de deputado.
Mas não. O Ronalducho é mito. E gente desse tipo tem que ficar lá, em prontidão, sempre nos mostrando um lampejo de glória. MPNM até onde der com Ronalducho… E nunca apostando nesse bando de pé murcho.
Bota Ronaldo, Parreira!
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