Macho pero no Mucho
 
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Drogas

19/07/2006 - 19h57

L. e o PCC

L. não existe. Pelo menos não em TVs, outdoors, games do Playstation, pesquisas do Ibope, do IBGE, do Ibama… Mesmo assim L. aparece, feito fantasma, toda terça-feira aqui em casa. L. é apenas outra sigla no meio de milhões delas. L.

L. tem a inicial do Lembo. L. tem o começo da liberdade. L. não se encontra livre. L. não está nem aí pra ser chamada de linda. L. acha que é limitada. L.

L., em sua última aparição, me ensinou coisas e me alertou sobre tantas outras. Um diálogo apressado, com uma das personagens saindo e a outra ainda pensando por onde começar.

EU – E aí, L.? Tudo bem?

L. – Senhor Macho Pero No Mucho… Desculpe, mas uma pergunta dessas jamais deveria ser feita… Jamais. Deus me livre e guarde. É claro que estou bem. Mas não estou.

L. é muito religiosa. E confusa às vezes. Porém, sabe teorizar como ninguém. Eis um de seus pensamentos: “Toda cobra é venenosa porque é cobra. Nasceu cobra, tem veneno. Onde já se viu ter nome de uma coisa ruim e não ser ruim?”.

L. acredita na simplicidade das coisas.

EU – Esse negócio de PCC…

L. – PCC… Eu te falo uma coisa. Se não morri outro dia, não morro mais. Estava numa lotação na zona Norte. Um carro com os vidros pretos, fechado pra vida, cruzou na frente do veículo onde eu rumava pra algum canto. Daquele caixão móvel saíram uns homens. Todos encapuzados, escondendo suas vergonhas. Eles mandaram os passageiros descerem porque iam tacar fogo em tudo ali… Eu pisoteei a cabeça de uma senhora. Uma igual. Sufoquei aquela alma para salvar a minha. É justo? Uma pela outra? E corri pra fora. Larguei minha bolsa, percebi que ainda vivia e comecei a rezar.

EU – É verdade isso, L.?

Quando L. começa a contar uma de suas histórias do além, você se torna o fantasma. Ela simplesmente pára de escutar o som dos vivos.

L. – Mas os homens, como todos deveriam fazer, chegaram a um acordo. A lotação poderia seguir. Mas sem ninguém dentro. Voltei, peguei a minha bolsa e, sem nenhum puto, andei duas horas até chegar a minha casa. Você já viu um ônibus queimado?

EU – Eu?

L. – Só ontem vi dois. E minha filha não consegue mais chegar em casa se sair do trabalho depois das 20h. Outro dia ela me ligou e eu desci até a avenida pra ver como estavam as coisas… Pedi para ela ficar onde estava… Vários carros, todos pretos, escoltavam as lotações de volta para a garagem. É isso. Estamos desabando, senhor Macho Pero No Mucho. Eu acho que chegamos ao fim. Deus me livre e guarde pensar assim… Mas eu acho que estamos chegando ao fim. Só espero que depois das trevas exista a luz. Só isso.

L. não existe. Não sai na imprensa, não entende por que as coisas estão sem solução. Mesmo assim L. levanta logo cedo todos os dias. E trabalha. L. nem sabe direito o que é o PCC. L. tem as inicias do Lembo e não é da elite branca.

Pelo menos em algum lugar L. tem que existir. Mesmo se ela for um fantasma, deixo aqui o registro eterno de sua presença. Mas começo a desconfiar que L. e o PCC realmente estão entre nós.



por Careca

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