
“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, disse uma das meninas do Chico Buarque quando descobriu que seu tempo na fila para conseguir um ingresso para a apresentação do ídolo tinha sido em vão e sem poesia.
Ah, Chico, se você soubesse o que suas Carolinas, Renatas Marias, Joanas, Anas, Helenas, mulheres de Atenas e até mesmo as espartanas estão passando para capturar uma entrada para te ver… Você certamente faria dúzias de canções sobre o sofrimento, a abnegação, a dor do amor e da gratidão. “Um foi Paratodos, este é Parapoucos”, gritou uma desesperada.
Eu te escrevo essas linhas, mestre, porque o que eu vi, nenhum homem está preparado para suportar. Eu passei de fila em fila e mirei olhos nos olhos de todas elas. Loiras, morenas, gatunas, garotas internacionais, interestaduais, intelectuais, com decotes ousados, decotes anônimos, saias rodadas, espíritos indômitos, potrancas sem freio, tímidas que escondiam os sorrisos, despachadas, abusadas, umas segurando sombrinhas coloridas, outras expondo a carne ao Sol, pés descalços, pés miúdos, pés esperando sapatos de cristal, pés inchados, lábios sem fala, lábios em flor… As suas meninas, Chico. Todas elas. Desculpe se emendo essas palavras toscas, mas não quero imitar Saramago, não… O literato aqui é você. Pretendo apenas mandar um grito que não fique parado no ar, um alerta, um aviso: ESTÃO MALTRATANDO AS SUAS MENINAS, CHICO…
Elas estão formando milícias e invadindo os espaços que oferecem o tíquete para o paraíso. Afoitas, querem uma chance, mesmo que distante, pra mirar seu talento, sacar sua beleza madura. Mas aí que está a sacanagem, Chico. Essas donzelas, em vez de serem salvas, têm que enfrentar um dragão sozinhas e sem nenhum pedaço de lança. Isso porque o Tom Brasil, por exemplo, o santuário onde você fará shows em São Paulo após anos e anos de falta, disponibiliza UM CAIXA para as pequenas. UM CAIXA!
Chico… Você tinha que estar lá para beijar aquele bando, as raízes do Brasil brotando radiantes enquanto esperavam até SEIS HORAS para lamber em prantos um mísero ingresso. E eu rodei por outros pontos e saquei a mesma tragédia, o mesmo tsunami de mulheres, Chico… Fiz isso porque você precisa saber: estão maltratando as suas meninas.
Em todos os lugares, filas de horas intermináveis. “É o fim de um bonito caso de amor, olele, olalá”, gemeu uma sirigaita quando entendeu que não poderia ficar longos minutos esperando sua vez. Chico, você tinha que ver a alegria daquelas que passavam pelo julgamento das atendentes… Saíam correndo pelas ruas, saudando um novo dia, espalhando o bilhete no ar, lotadas de esperança por finalmente encontrar a felicidade.
Chico, você precisa saber: estão maltratando as suas meninas. “Sofrer vai ser a minha última obra”, atacou uma senhora, te confundindo com o Leminski (verdadeiro autor dos versos proferidos). Mas tudo bem, né, Chico… Elas estão descontroladas, canta o funk.
Chico, se você soubesse… Tenho certeza que organizaria a fila, chamaria mais gente pra servir a esse público, cantaria para distrair as meninas e ainda choraria pelo desprezo apresentado por organizadores fajutos e sem nenhum poema nas mãos.
Nem falo dos rapazes porque estes têm pouca cintura, mas muito jogo. Munidos de isopores com cerveja, samba e suor, eles ainda procuram transformar tudo aquilo em festa. E se perderem a vez… Correm para olhar a tabela do campeonato de futebol e buscar outra torcida.
Mas as suas meninas, não. Elas necessitam de um pouco de paz, amor e olhos azuis. Lembra quando o Bono Vox resolveu aparecer por aqui ano passado? Então, o mesmo desrespeito, a mesma volúpia por ganhar uns trocados na base do “fiquem na fila, seus animais”.
Será sempre assim? Bem que você poderia bolar algo diferente, bonito mesmo, cheio de versos, de bossa, para que seu público possa pagar caro, muito caro, mas em dinheiro e não em paciência.
Era só isso. Obrigado pela atenção, meu rei. Desculpe insistir, mas veja como a coisa vai rolar nas outras cidades…
Estão maltratando as suas meninas, Chico.
Quero uma Mulher!
é feio isso
quero uma mulher gostosa