
As sombrinhas, o coro, os atores formando figuras geométricas, o texto sendo espirrado com tanta vitalidade… Com 20 anos, descobri Antunes Filho, o teatro e Nélson Rodrigues. Tudo assim, de uma vez, quase um tsunami de sensações. Isso em 1992, muito depois de “Macunaíma”. Naquele ano, saí da sala do Sesc Consolação, em São Paulo, após uma exibição de “Paraíso Zona Norte”, impregnado com a melancólica imagem de Luís Mello gritando “Vascoooooo”.
Quatorze anos depois, me retiro do mesmo lugar e fico novamente ali na Dr. Vila Nova ruminando a minha bovina ignorância. Em vez do berro doído da personagem de “A Falecida”, soa nos ouvidos a triste canção dos loucos canonizando e abençoando Quaderna, figura central de “A Pedra do Reino”, nova peça dirigida por Antunes Filho (e com um ingresso -dependendo do lugar- aproximadamente R$ 340 mais barato do que o do Cirque du Soleil).
A provocação com os europeus soa irregular e sem propósito, mas talvez o caminho seja assim mesmo, trôpego, cheio de percalços. Vou armando essa teia de raciocínio enquanto converso com vocês.
Pois sei que um vem da França e o outro tem origem em dois livros do paraibano Ariano Suassuna. Entendo que um está ao lado da Daslu e o outro abarrota o centro há muitos anos. Percebo que um tem pipoca a R$ 12 e o outro entrega gratuitamente um bonito miniprograma com frases sobre a loucura da injustiça entre os homens. Friso que um é incrementado pela imprensa como “imperdível, único, estonteante” e o outro recebe resenhas de especialistas em espaços pouco nobres. Vejo que um tem DVDs e Cds sendo vendidos em camelôs e Fnacs e o outro acaba sob o registro único das palmas.
Longe daqui qualquer peleguismo insano a favor da xenofobia (aliás, substantivo comumente empregado a Suassuna), mas como é bom pensar o país sem ser patriota de ocasião. Como é bom ouvir sua língua ali, escarrada, mordida, cuspida com tanta desenvoltura. Como é bom se refestelar na cadeira e escutar uma peça feito música. Como é bom entender um pouco mais sobre os anseios, as obviedades e feridas de um povo.

Em “A Pedra do Reino”, Antunes cria um circo solar, castigado pelo sertão. Uma terra banhada de Sol e sangue, mistura do vermelho e amarelo, mistura de raças, de cores, de tendências, de bravatas, de religiões. Um caos pedindo organização e ordem. Ou o extermínio? Existe apenas a necessidade de uma justiça mínima. Mas ela não aparece. Será que vamos precisar de um vingador, como propôs Diogo Mainardi em “Polígono das Secas”?
Simultaneamente Antunes faz o jogo do teatro. Um jogo de marcação cerrada, com quadrados, retângulos e círculos mágicos. Cenas lúdicas, construindo passagens visualmente deslumbrantes na aridez de um palco nu, sem cenário. O homem como argamassa da vida, do espetáculo, de tudo. Acredito que os franceses lá da lona devem fazer assim também, não?
Estranhamente não encontrei a elite branca jogada no Sesc Consolação. Vi sim amigos dos atores, jovens querendo sacar qual é a do teatro e famílias inteiras ruborizadas pelo estranhamento de serem brasileiros. E pobres.
No circo francês, um amigo foi e levou brioches. Era uma forma de protesto. Contou que se fosse raptado pelos palhaços, iria jogar os pãezinhos para a patuléia. Não foi necessário. Ele nem chegou a entrar ao perceber que o estacionamento irregular custava R$ 20.
Antunes me mostrou Shakespeare ao som de Sepultura… Jorge Andrade com Zezé e Luciano… Chapeuzinho Vermelho numa língua não catalogada… E agora coloca Suassuna no panteão dos grandes autores franceses, um Balzac com farinha e mandioca.
Em “A Pedro do Reino”, estão lá atores mambembes e saltimbancos. Estão lá figurinos e cores berrantes. Estão lá homens e mulheres que se jogam em busca do espetáculo. Estão lá o sublime e o profano. Estão lá histórias e canções que versam sobre a superação de mazelas e infortúnios. Estão lá a esperança e o medo.
Não sei se o circo da marginal tem essas coisas todas. Pois bem. Acho que sim e em doses cavalares. Talvez Antunes não esteja nem aí. Mas que bonito seria ver “A Pedra do Reino” em imensos cartazes em qualquer agência Bradesco ou esquinas chiques. Mas que bonito seria bradar por aí que sou “prime” porque assisti ao Suassuna revisado pelo Antunes. Mas que bonito seria imaginar que aqueles atores do CPT poderiam ser saudados como gênios da raça, tanto quanto os do Soleil. Mas que bonito seria observar que nenhuma arte anda mais na corda bamba da ignorância.
Sim, isso seria bonito demais.
very good
Puxa Careca, por que só hoje fui abrir o Machoperonomucho? A frustração é porque cheguei 5ª feira de São Paulo e poderia ter ido assistir a peça. Sua crônica está de dar água na boca. Setembro voltarei a terra da garoa (não aceito dizer o nome pavoroso que hoje circula por aí) e se o espetáculo continuar em cartaz irei de qualquer maneira.
Muito bom o teu blog. Nota-se que vbc posta aqui com conhecimento da causa. Vim aqui procurando a ultima peça dirigida pelo Antunes. Voltarei.
Ah, esqueci de dizer que o título é um achado ! Parabens.
Nunca tinha visto nada do tal do Antunes Filho. A Pedra do Reino tem um texto que exige muita atenção e a peça tem muitas referencias simbólicas, históricas. O ator que faz Quaderna é impecável, como todos no palco. Um espetáculo!
Oi Careca
fui assistir o trabalho do Antunes, simplesmente maravilhoso!!
Concordo que foi um absurdo o Cirque du Soleil cobrar no mínimo 100 reais, até pra estudantes ou pessoas da “classe”… aliás me recusei a ir assistir.
Mas só gostaria de te informar que o Cirque du Soleil tem sua sede principal no Canadá, formado por artistas do mundo inteiro. Então da próxima vez se irforme melhor antes de criticar algo que pelo visto você nem conhece.
O Théâtre du Soleil sim tem sua sede na França, e se um dia eles conseguirem ir pro Brasil, pois grana falta muito…eles não cobrariam esse preço absurdo.
Diferentemente de outros tantos blogs, aqui não há censura. Esta é apenas uma (e uma pequeniniiiinha) das muitas razões por que gosto tanto de visitar este Careca.
COMENTÁRIO:
Oba. É nóis. Abraços,
Careca
otimo maravilhoso