
Realmente este Careca nos bota para pensar, vejam só a máxima despretensiosa do menino: “sacanear a existência”. Pois bem, vamos lá: vocês já pararam para pensar sobre o que significa sacanagem?
Se a resposta foi sim, você pode ler diretamente o próximo parágrafo, agora se a sua resposta foi não, ah… me deixa explicar: sacanagem é quando você e seu parceiro masturbam um ao outro. Se você for ao Aurélio ainda achará uma série de impropérios contra a sacanagem e os sacanas, tais como: devassidão, bandalheira e libertinagem.
Agora que aqueles que não sabiam o que era uma verdadeira sacanagem aprenderam e aqueles que pularam o parágrafo anterior por aqui chegaram, vamos entender porque o Careca teve uma sacada. Ora a sacanagem nossa de cada dia é a própria existência, deixem-me ser mais claro, assim como é impossível sacanear a si mesmo, por mais que você se boicote ou se masturbe santa, é impossível perceber nossa condição existencial senão com a interação com o outro, no melhor sentido existencialista desta dualidade.
Sendo assim, sacanear é existir e existir é sacanear. Não há outra forma de entender a vida senão a partir da própria sacanagem, fazemos isso a todo tempo, com os chefes, com nossas namoradas ou/e namorados, com os nosso desafetos, com as pessoas pelas quais temos o maior apreço. A sacanagem é condição de percebermos que existimos a partir da interação com o outro e a forma de permitir ao outro a partir da interação conosco a percepção de que ele existe.
Dito isto, gostaria que alguém mais gabaritado pudesse fazer um capítulo novo para Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, incluindo o porque de ser sacana com a própria existência como um caráter indistinto de brasilidade.
Não é possível existir sem sacanear e não é possível sacanear sem existir. Veja, basta você utilizar como exemplo aquele vizinho, velho, ranzinza e rabugento do 103 do seu prédio. Ele não sacaneia ninguém, mas ele também deixou de existir, sua interação com os outros são meros grunhidos guturais de quem desistiu da sacanagem e da própria existência, no máximo ele subsiste como o fantasma de Hamlet a assombrar os sonhos de quem existe e portanto sacaneia.
Poderia me alongar, trazendo mais e mais exemplos, mas com tanto Arnaldo Jabor por aí, cheio de si e de grana não vou me prestar esse serviço, afinal escrevo meio clandestinamente entre um ou mais dos meus trabalhos e não quero deixar de existir e sacanear o leitor para saber o que será que vossa senhoria pensa sobre isto?
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