
Alô, crianças. Como algumas pessoas sabem, eu tenho (inclusive registrado em cartório) um tio chamado Seu Noronha. Há algum tempo ele virou uma espécie de Steve Irwin. Mas, em vez de caçar crocodilos, ele procura diários perdidos de diversas espécies de animais.
Ele acredita que assim conseguirá provar que somos tão bichos quanto os outros bichos. Como ele consegue esses escritos e, principalmente, como os animais datilografam isso, realmente não sei. Mas hoje em dia prefiro acreditar em qualquer coisa do que duvidar de tudo.
Até hoje, eu só tinha publicado um desses textos num antigo blog. Qual foi a minha surpresa quando recebo dia desses as linhas do Seu Noronha, mas como um texto apócrifo? Sabem, desses que circulam sem dono por aí…
Ora, na condição de rei dos MPNMs, o Seu Noronha ficou ofendido e pediu para que eu colocasse aqui neste sítio as devidas explicações sobre o famoso “Diário de Um Periquito de Realejo”, que corre em certos mails.
E meu saudoso tio promete mais. Disse que conseguiu as confissões íntimas de uma jaguatirica e de uma anta. Pois bem. Aí está.
DIÁRIO DE UM PERIQUITO DE REALEJO
Todos os direitos reservados para Seu Noronha
06:30 - Acordo de ressaca. Quando Juvenal, meu dono, mencionou que aquela água branca passarinho não poderia beber, deveria ter escutado. Nunca pensei que a tal pinga guardasse tantos poderes.
06:31 - Tento comer um pouco de alpiste, mas vomito grão por grão. A cabeça dói. Esqueço de usar as asas, salto do poleiro e caio no chão da gaiola.
06:33 - Preciso me lembrar de pedir desculpas aos outros periquitos. Durante a bebedeira de ontem à noite, acho que cometi excessos.
06:36 - Agora me lembro. Chamei urubu de meu louro. Estou com uma dor estranha no traseiro. Será pena encravada?
06:39 - Juvenal vem me chamar para o trabalho. Vomito de novo depois de lembrar do gosto da aguardente.
06:50 - Pegamos o ônibus para a praça Benedito Calixto. Tento dormir, mas duas crianças irritantes insistem para que eu fale alguma coisa. Merda, até quando vão me confundir com um papagaio? Eu não falo, cacete.
06:54 - Esse anda e pára do ônibus faz com que eu vomite mais uma vez. Droga, também estou com o intestino solto. Vida de trabalhador é literalmente uma merda. Por que hoje não é feriado? Dia Internacional do Periquito de Realejo, por exemplo?
07:31 - Chegamos à praça. Droga, parece que o movimento vai ser bom. Gostaria de dormir o dia inteiro. Abuso do trocadilho e sinto pena de mim mesmo. Pena. Sacaram?
07:40 - Tudo pronto para começarmos. Juvenal toca o realejo. Deus, essa musiquinha me tortura e parece massacrar o que resta dos meus neurônios. Eu tenho neurônios? Tento me concentrar em outras coisas. Vejo uma sabiá na árvore logo em frente. Fico entusiasmado. Ou seria um sabiá. Vocês sabiam que o sabiá sabia assobiar? Ah, esqueçam.
08:45 - Dormi quase uma hora. Acordo com o primeiro cliente. Saio da gaiola e penso em voar para longe. Pego um papel marrom e entrego para o sujeito. Ele sorri. Mais um enganado pelo Juvenal.
08:59 - Fico um pouco animado. O próximo cliente é uma mulher linda, com os lábios da Angelina Jolie e a barriguinha da Cameron Diaz. Pego um bilhete inspirador para a moçoila e ela pede para me dar um beijinho. Aceito, claro. Sou passarinho, mas não sou burro.
13:45 - Acordo para almoçar. Nenhum cliente nesse intervalo. Agora o alpiste desce bem. Juvenal também me dá um farelo de pão com lingüiça. Arroto a cachaça da noite anterior.
14:30 - Sem clientes, leio as mensagens. Todas retiradas de Salmos, livros de auto-ajuda e ensinamentos budistas. Como esses humanos são tão otários?
16:15 - Nada. Juvenal decide ir embora. Aquela sabiá da manhã continua flertando comigo. Adoraria dar umas bicadas por aí. Uma rapidinha. Mas e se ela souber que sou um sujeito que bebe e não se agüenta em pé? Passarinhos não perdoam fraquezas.
18:10 - Chegamos. De volta ao lar. Juvenal beija a esposa e diz que vai encontrar uns amigos na esquina. Agora só deve voltar de madrugada, tropeçando nos próprios sonhos.
21:25 - A mulher de Juvenal faz o jantar e coloca as meninas para dormir. Eu detesto essa novela das oito.
22:23 - A mulher de Juvenal apaga todas as luzes e dorme. Abro a gaiola devagar e vou até o armário da cozinha. Encontro o garrafão e dou umas bicadas na rolha. O cheiro da pinga entorpece minhas penas. Durmo. Talvez sonhar. Amanhã é outro dia.
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