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Rock'n roll

18/09/2006 - 22h23

Chico e as pedras

Confesso que fui com pedras nas mãos (antes que perguntem: só pedras mesmo, porque pau não soaria bem) assistir ao espetáculo do senhor Chico Buarque (o de Hollanda) no matadouro do Tom Brasil, ao lado de um ribeirinho de péssimo cheiro, em São Paulo.

Ah, mas levei uma pedra para cada assunto. A saber:

- o preço do estacionamento no local (R$ 20);
- a confusão na entrada;
- o desconforto das mesas e cadeiras (o que confirmaria o preço abusivo dos ingressos);
- a histeria das mulheres;
- a fraqueza dos homens (que deixam suas mulheres ficarem histéricas);
- a monotonia do show;
- a preguiça de inovação do Chico;
- o tédio dos músicos;
- a falta de nuances da luz e do cenário;
- a eterna espera pelo carro na hora de ir embora.

Contaram? Dez pedras. Minha calça jeans da Diezel (com Z mesmo, comprei no camelô) estava pesada e minhas mãos coçavam de ira. Pois bem, crianças. Eis que estou de volta e com oito pedras ainda guardadas. Sim, arremessei apenas duas. A saber:

- na cabeça do proprietário do estacionamento;
- no cocoruto do irresponsável que organiza shows naquela lata de sardinha do Tom Brasil (ei, as pessoas ficavam viradas de costas para o palco por causa das posições das mesas! Ponto de exclamação).

O resto… Que beleza, que maravilha. Chico Buarque interpretando Chico Buarque com elegância, talento e disposição. O resto vocês já sabem, né? Músicas em blocos, como na série de DVDs recém-lançada. O compositor e cantor respirava e… Futebol. Mais uns suspiros e… Mulheres. Outra cafungada no copo de água e… Política. Mais um gole e… Artistas. E assim foi.

E o cenário? Um Rio de Janeiro que virava Lua e voltava a ser Sol conforme girava e era abençoado pelas luzes (limpas, cristalinas… divinas mesmo, começando um mundo).

No início, o cheiro de coxinha me incomodou um pouco. Algumas donzelas resolveram pedir champanhe, ostras frescas e garotos de programa. Mas tudo isso foi se resolvendo com o tempo (afinal, a bebida aparecia, mas nada de ostras ou meninos da vida). E mesmo as doidas (que estavam todas no show do Gordo) não apareceram. Todos se comportaram com entusiasmo e reverência (mas não excessiva, porque aí fica chato).

E o Chico, para provar sua humanidade, errou em “As Vitrines”. Repito: o Chico errou em “As Vitrines”. Ele desafinou, viu…

E pediu desculpas. E sorriu. E ficou feliz ao perceber que não era um robô (ou uma mera imagem reprodutora de prazer).

Mais: rogou para que parassem de tirar fotos nas primeiras fileiras, sorriu para os músicos e, penso eu, verteu uma ou outra lágrima furtiva durante “João e Maria”.

Um porre de talento, enfim, com um Luiz Cláudio Ramos inspirado e uma banda pra lá do Arpoador (seja lá o que isso signifique).

Ou seja, compareçam. O cara merece. Apesar de você, Tom Brasil, a platéia não desafinou e o show pode continuar. Esse Chico…

LEIA (SE QUISER, CLARO) OS OUTROS TEXTOS DO ESPECIAL:

http://machoperonomucho.uol.com.br/2006/09/18/zsoe-chico-ou-jose/

http://machoperonomucho.uol.com.br/2006/09/18/chico-buarque-x-roberto-carlos/

http://machoperonomucho.uol.com.br/2006/09/18/as-paquitas-do-chico/

http://machoperonomucho.uol.com.br/2006/09/18/amigos-amigos-chico-a-parte/

http://machoperonomucho.uol.com.br/2006/09/18/chico-e-as-pedras/



por Careca

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