
Sim, eu fui ao show do Chico Buarque, e assim que o vi entrando pelo palco e sempre intercalando uma música nova com uma antiga, senti que este nosso homem rendeu-se de tal forma a Pós-modernidade e seu desencanto, seu desalento, que parece ter se tornado um Zsoze Kósta inconformado, lutando pero no mucho, para voltar a ser o bom e velho José Costa, ambos personagens que debatem o ser ou não ser, ou ainda melhor o ser e o parecer ser no seu belíssimo livro Budapeste (Companhia das Letras, 176 págs., R$ 29,50), escrito entre sua casa no Rio de Janeiro e seu apartamento em Paris, devo frisar que qualquer semelhança não é mera coincidência, afinal as personagens estão no Rio e em Budapeste, não?
Nosso autor é profícuo na forma inteligente como monta a trama de duas personagens que na verdade são uma única, o nosso cantor e compositor vacila entre aquilo que foi e aquilo que é, ou parece agora ser, acanhado como sempre não gosta de rima fácil, no meio disto ficamos nós mortais sem saber para onde ele quer ir, para o passado no qual se tinha futuro ou para o presente sem futuro sobre o qual nos debatemos como peixe fora d´água.
Um Suplicy, como sempre desengonçado, senador da República mais boa gente do que a média, grita e pede “A Banda”, Chico não ouve, afinal “A Banda” passou e nada mudou, não é mesmo?
Me lembro de outro gênio, mais indigesto, feio e baiano, Raul Seixas, que gritava durante a ditadura, “não sou fascista, não sou comunista, eu sou ego, ego, egoísta”. Ele ao que tudo indica, meu caro Chico, já sabia a lição, essa é uma contribuição do meu irmão caçula que sempre preferiu os verdadeiros loucos aos idealistas.
Reconheço meu caro Chico, você não se entrega facilmente como nosso ex-querido Caetano Veloso, a Imelda Marcos da cultura brasileira, mas parece por ora cansado de dar tanto murro em ponta de faca.
“Decifra-me ou te devoro”. Não brinque com isso meu querido Chico, pois sei da minha visão limítrofe para tentar decifra-lo, mas se por acaso tenha acabado de fazer o melhor disco da tua vida e eu não tenha sido capaz de compreendê-lo, sinto muito, afinal somos todos crianças aprendendo ao longo de nossas intermináveis férias na Terra. Devorado , entrego os pontos, não sem antes perguntar: “alguma coisa está fora da ordem?”
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