
POR BIG BEN
Correspondente do MPNM em Londres

Os leitores deste site são pessoas reconhecidamente preocupadas com os rumos da política internacional. Então vão ter um motivo a mais de preocupação ao saberem que as relações entre o País de Gales e a Nova Zelândia chegaram a um dos pontos mais baixos de sua história.
O motivo está longe de poder ser considerado frugal. Antes de um jogo de rúgbi entre os dois países, em Cardiff, os neozelandeses se recusaram a realizar sua famosa dança ritual em frente ao público presente. Bom, talvez seja frugal. Mas não vou ser eu em quem vai dizer isso aos trogloditas que levaram o treco a sério.
Ninguém sabe nada de rúgbi, o que faz bastante sentido, mas todo mundo já ouviu falar das tradicionais danças maoris da Nova Zelândia. São coloridas e animadas e sempre têm uma função, e volta e meia um dignatário estrangeiro é visto nos telejornais pagando um sapo em frente a um maori um pouco mais entusiasmado.
No caso especifico do rúgbi, com sua dança, chamada haka, os All Blacks comunicam aos adversários que, no decorrer da partida, sua moral será arrasada e seus membros triturados sem piedade, enquanto o valente time neozelandês caminha de forma célere, e pisando sobre suas cabeças, rumo a uma vitória gloriosa. Ou coisa que o valha. Sem dúvida uma mensagem das mais edificantes, ainda que não chegue ao mesmo nível das invectivas do grande Mike Tyson em direção a Lennox Lewis. (“Eu vou devorar você. Eu vou devorar os seus filhos.”)

O macho mais radical, aquele que não considera aceitável nenhum tipo de contato com outro integrante da espécie, pode ter lá suas reservas quanto ao rúgbi, um esporte em que durante boa parte do tempo os jogadores ficam com as cabeças entaladas no sovaco dos companheiros, orelha a orelha com vários adversários, e em alguns lances até impulsionam um colega exercendo pressão exógena nas suas coxas e nádegas.
Mas quem já viu um neozelandês aplicando um “tackle” em um galês (com aquela cara de: eu bem que te avisei) vai pensar duas vezes antes de fazer tais considerações em voz alta em um bar de rúgbi, como o que eu freqüentei durante um tempo nas alturas de Regent’s Park.
Uma vez até fui a um jogo de rúgbi, nada menos que da primeira divisão inglesa, e duas coisas me chamaram especialmente a atenção. A primeira é que sempre tem um jogador estendido no gramado, gravemente contundido, e, apesar disso, o jogo nunca pára, com o atendimento tendo que ser feito em meio aos lances mais sanguinários. Ou seja, médico de time rúgbi, este com certeza tem que ser macho.
Por outro lado, nas arquibancadas, torcedores dos dois times assistiam à partida lado a lado, irmanados, com mulher e filhos, enchendo a caveira de cerveja e, apesar de seu tamanho médio corresponder ao de um contêiner de boas dimensões, sem arranjar encrenca com ninguém.
O que talvez não diga grande coisa a respeito da macheza destes torcedores. Ou não tem nada a ver? Não sei não. Mas certamente não vai ser eu quem vai botar o assunto em discussão.
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