
James Bond está numa clínica se recuperando das porradas que levou numa rigorosa sessão de tortura. O agente secreto ficou literalmente de saco cheio depois de sofrer o diabo nas mãos do próprio.
Eis que surge Vesper, sua amada, e antes de finalmente se entregar ao herói, duela nos seguintes termos com o pobre serviçal de Sua Majestade:
VESPER – Bond… Mesmo que só tivesse te restado o dedo mindinho e seu sorriso, ainda assim você seria muito mais homem do que todos que já conheci.
BOND – Você fala isso porque sabe do que sou capaz de fazer com meu dedo mindinho.
Corta. Na cena seguinte, o novo 007 (Daniel Craig) arranca a roupa da pequena (Eva Green, uma espécie de Grace Kelly pós-11/09) e fica com o coração em brasa, mandando tudo –inclusive a simpática M- para o inferno.
Até tu, Bond? Sim, os brutos também amam. E ficam em pedaços se não são correspondidos.

A seqüência acima não é fiel ao que acontece em “Cassino Royale”, o mais recente rebento da franquia 007, porém é o clímax de uma árdua batalha para se conquistar o coração de uma fêmea.
O cobiçado agente secreto prova que amar é uma dureza, mora. Danem-se os vilões que choram sangue, as guerrilhas africanas, os mauricinhos borra-botas que lambem o rabo da rainha… Em nome do amor, James Bond manda todos catarem coquinho, ver se ele está na esquina, ao lado do metrô Picadilly Circus.
Meninas, eis uma chance para vocês entenderem como é traiçoeiro confiar nas artimanhas da paixão. Não à toa o filme gira -em falso, muitas vezes- ao redor do amor e do jogo, que formam dois lados de uma mesma moda.
Tanto na cama como na mesa de pôquer, os amantes jogam, blefam, trapaceiam, ganham muito e perdem mais ainda.
É impossível sacar se estamos diante de uma sequência vagabunda de naipes ou de um Royal Straight Flush. Quando pensamos dominar os tiques da amada, lá vem ela com uma carta na manga e nos coloca para dormir no sofá.
As mulheres sempre se derreteram pelo charme, masculinidade e sacanagem de mister Bond. Mas faltava alguma coisa. O charmosão nunca declarava amor nem ia muito longe nas apostas. Para ele, amar era uma impossibilidade.
Desconfiado, sabia que as pequenas enganam como ninguém. Partia para o ataque, conquistava uma ou outra jogada, recolhia os dividendos e bye-bye.
Só que o tal do Daniel Craig chega para mostrar que o sujeito amou um dia. Um maldito dia, aliás. Meteu as fichas na mesa e… Perdeu feio.
Pois digo aqui mister Bond, James Bond, amar é realmente uma baita encrenca. Salvar o mundo é pinto perto do esforço que é encontrar a tal metade da laranja.
Dói demais. Não bastassem os cronistas, poetas, Caetanos das esquinas falarem de amor, agora vem esse inglês marrento provar que gostar de alguém é uma luta inglória, cheia de socos, pontapés, xingamentos e algum sexo.
E a aventura vira drama quando a gente descobre que aquela não era a tampa da panela. Muitas vezes compramos uma bonitona, de aço escovado, da melhor marca. Mas não serve para cozinhar nosso caldo.

Ora, o mister Bond desistiu na primeira tentativa. Foi lá, viu como era e caiu fora. Vejo aqui aquela cara de pitbull dizendo:
“Meu nome é Bond, Bond de cama. Sabem por quê? Porque desisti de amar. Amar é uma big shit. Não tenho paciência para ser como esses jogadores que perdem várias vezes até ganharem a bolada que garanta sua aposentadoria. Comigo não tem blefe porque não tem jogo. Eu não amo. Por isso deixo a mesa do cassino fechada. E desce mais um dry-martini. Batido.”
“Cassino Royale” deveria ter trilha-sonora do Reginaldo Rossi. É um filme de amor, bebedeira, cornos, alguma pancadaria e garçons. E o vilão se chama Le Chiffre. Verdade. É ou não uma obra romântica?
Quanto a esses daí que comentam a metrossexualidade do sujeito… Esqueçam. 007 pode ter lá sua barriga tanquinho e uma certa vaidade ao se olhar no espelho, mas a maneira com que ele defende sua mulher… Ah, só um MPNM de verdade para afundar Veneza em busca de um tiquinho de amor.
Você vai entender o calvário do agente se um dia ficou sem chão por causa de alguém.
Pobre Bond. Faço aqui o seu drinque favorito e brindo ao desespero da paixão. E agradeço por você estar fora da parada. Deixe esse negócio de amor para nós, eternos jogadores.
James Bond tá com tudo!!! Lançou esses dias até um perfume para mulher, o Bond Girl 007 http://blog.ypsilon2.com/?x=entry:entry080913-203123 Vale a pena ver.