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Drogas

15/02/2007 - 23h55

Cueca tanajura e os bundões de Ipanema

Todos os dias o Sol dá as caras e atrás dele segue um cortejo de possíveis felicidades. Já nas primeiras luzes, na praça aqui em frente, as meninas levam seus cachorros – e suas virtudes - para passear. Os garotos buscam conforto na adrenalina do skate. O jardim parece se espreguiçar. Um coreto cuidadosamente cercado por grades indica que no passado tudo era ainda mais bonito, cheio de som e fúria.

Mas não consigo esconder de vocês a minha insatisfação. Isso porque sonego algumas informações dessa beleza toda do parágrafo acima. Acontece que as tais pequenas da praça estão com botox, seios falsos e comentam sobre o último expulso do “BBB 7”. Seus animais de estimação – alheios à nossa desgraça – latem e latem para conseguir um afago. Recebem gritos como castigo por perturbar a paz; mesmo com o buzinaço que acontece ao lado, quando as mamães desesperadas entram em colapso ao observar a fila tripla em frente ao colégio do filhão.

Os policiais que regam de segurança o local expulsam dois ou três desabonados que insistem em dormir até mais tarde no meio das rosas – que não falam e, tadinhas, nem conseguem roubar o perfume dali.

Os garotos do skate berram “licença, caralho”, enquanto arremessam com delicadeza suas pranchas. São placas ambulantes, com roupas recheadas de slogans, marcas e logos. Para eles, o tombo seria uma solução.

Olho pra cima e reparo pela primeira vez na redoma. Ninguém viu? Estamos fechados num mundo de plástico. Somos aquela bugiganga decorativa, uma bolha gigante cheia de cacarecos falsos. Ou então vivo no “Second Life”, o jogo ultra-moderno que nunca entendi.

Só assim para explicar por que uma loja de Ipanema, no Rio de Janeiro, vende cuecas com enchimento no traseiro.

Recorri até agora a metáforas e peraltices. Peço desculpas pelo exagero, pela breguice.

Mas CUECA COM ENCHIMENTO NO TRASEIRO não dá – com duplo sentido.

Já sabemos que algumas meninas usam quilos de algodão a mais no sutiã e nas calcinhas. Um abuso, pois. Nossos sentidos não se limitam à visão. E o tato, minha gente?

ipa

A coisa vai mal e fake. A cerveja que eu tomo não tem gosto de Juliana Paes. Meu cartão de crédito tem limites – e preço -, sim senhor. Meu carro nem de longe faz aquelas manobras do comercial. Meu xampu não me deixa parecido com o Rodrigo Santoro. Meu café da manhã está distante de catalisar aquela alegria por causa de uma manteiga escorrendo no pão. Meu macarrão não exala cheiros afrodisíacos e gostos deslumbrantes. E nunca transei com a Angelina Jolie só porque passei a usar uma marca diferente de creme dental.

Sempre suportei essas óbvias malandragens. Mas cueca tanajura é demais. E Sérgio Augusto comenta no Estadão que o estoque do lugar foi exterminado pelos clientes em 40 dias. A explicação: a loja fica a uma quadra do reduto gay de Ipanema.

Quer dizer que a autenticidade, a alegria e o entusiasmo dos gays também foram contaminados? Parece que sair do armário com cueca com enchimento é mais fácil.

Ou será que machos colocam esse treco porque ouviram que a mulherada olha primeiro para as nádegas do garotão?

Essa papagaiada toda pressupõe que jamais vamos encostar em nossos desejos. Pois uma mulher que usa enganações desse tipo quer apenas o olhar do voyeur. Na hora do embate, na arena, todos esses produtos viram pó. O que vale mesmo é a pele, o cheiro, a verdade e a sacanagem. Logo mais vamos tirar não apenas a roupa, mas o corpo e a alma da outra na hora do amor. E perceberemos que nada mais é real.

Meninas, cuidado. Tem muito bundão solto por aí. Principalmente em Ipanema.



por Careca

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6 Comentários »

gabi
2007-02-16 10:26:47

hahahahaha incrivel!!!! o que seria de nós sem suas percepçoes sobre o mundo de plastico e o bum bum gordinho!!!!!

 
Carol
2007-02-17 15:05:17

Está escrevendo que é uma beleza, hein?

 
Gregor Samsa
2007-02-21 16:05:55

Careca

Várias amigas minhas, sobretudo as que trabalham na Av. Paulista, em São Paulo, comentam que muitos - ou todos - os gays, sabe-se lá por qual razão, têm a bunda encolhidinha. Elas não se aprofundaram na tese. Não sabem se há alguma explicação genética para esse fato ou se, de tanto levar bombadinhas, as bundas acolhedoras se transformam em \”bundinhas\”. Não sabem. Mas o que, para elas, já está acima de qualquer discussão é o dogma que eu acima citei: todo veado tem a bunda encolhidinha. Ponto. ? o que elas dizem.

Mas pq cito isso? Acontece que em São Paulo, entre as meninas, já é comum o chamado \”teste da bundinha\”. ? muito simples: qdo elas se interessam por um cara, analisam a bunda dele. Se é miudinha, desistem.

Ora, ora, ora. Se esse teste já chegou e se popularizou entre as meninas do Rio de Janeiro, ele bem pode explicar o sucesso das cuecas \”cadeirudo\”, pois:

a) talvez - eu disse \”talvez - existam cabra-machos, heteros tipo exportação que, por um azar do destino, nasceram com a bunda miudinha. Assim, para escaparem do julgamento prematuro das mulheres, encontraram nas cuecas \”cadeirudo\” a salvação e;

b) para os gays enrustidos, a cueca \”cadeirudo\” também é uma boa arma para evitar comentários na vizinhança, sobreuto das mulheres, que são todas hór-rí-veis, no-jennn-tas e fo-foquei-ras (ui).

Enfim, sei lá. Talvez estupidez seja única justificativa para alguém que compra uma cueca com enchimento. Talvez não.

O que interessa mesmo, sobretudo para essas minhas fanáticas e apegadas amigas, é o seguinte: eu não tenho a bunda miudinha.

O resto é conversa prá boi dormir.

[]

RESPOSTA:
Caro Samsa, você é um barato. Rara. Essa foi horrível…
Gostei muito da tese de suas amigas. Na verdade, acho que estudei isso nas aulas de semiótica na faculdade de jornalismo. Elas conhecem Deleuze? A história é um tanto pós-moderna e pós-estruturalista. Sinceramente, não tenho condições de sair por aí olhando a bunda dos rapazes para - empiricamente - comprovar a provocação. Assim, enviarei representantes até as áreas onde os objetos de estudo atuam. E certamente escreverei em breve sobre assunto tão urgente. Quer dizer que os bundões estão com tudo? Abraços,
Careca

 
Gregor Samsa
2007-02-22 16:01:44

Careca

Eu consultei minhas amigas, citei Deleuze e elas responderam: - fala do Gilles? Elas ficaram entusiasmadas. Disseram que o Dedê (elas o chamam de Dedê) é incrível, hetero (elas não viram a bunda dele, mas confiam na Fanny) e inteligente. E mais: elas acharam incrível a sua menção à semiótica. Desta vez eu acho que elas se empolgaram, viu? Quiçá, finalmente, se aprofundem no assunto tanto quanto eu me aprofundo nelas. ? esperar para ver…

Mas acho bom que vc também envie representantes para averiguar os fatos e, principalmente, que vc em breve escreva sobre o assunto. Show.

Porém, não é demais lembrar uma coisa: há bundões e bundões. Alguns podem estar com tudo sim, quem sabe? Mas os bundões com status de FaMer (Fábrica de Merda), áhhh, esses não estão com nada. Esses cagam em tudo e todos, impiedosamente.

E muitos desses, infelizmente, estão no poder.

Só Deus sabe o quanto o Gabeira e o Clodovil, com suas bundinhas miúdas, estão tendo que rebolar entre os bundões de Brasília… ts ts ts

RESPOSTA:
Caro Samsa,
Dedê? Bem, caso seja um elogio, aceito de bom grado. Transmita meus afetos para as suas pequenas. Aliás, temos aqui mais um artigo daqueles, hein? Afinal, homem pode ter apelido manhoso? Dedê?! Quando é permitido chamar o namorado de \”ursinho\” sem ferir a masculinidade do mesmo?
Quanto ao Gilles, logo mais poderemos falar sobre certos abusos da pós-modernidade (dica: o livro \”Como a Picaretagem Conquistou o Mundo\”, de Francis Wheen).
E sem dúvida devemos separar os bundões dos cagões. Abraço,
Careca

 
Gregor Samsa
2007-02-23 08:11:23

Careca

Tem razão, essa questão é bem interessante: são aceitáveis apelidos manhosos em um macho? Vou além: é aceitável que o… ér… instrumento de um legítimo macho também receba apelidos?

Não tenho opinião formada, mas, em alguns casos, acho o apelido aceitável.

No meu caso, por exemplo. Minha namorada apelidou o careca (o meu careca, não vc…rsrsrs) de Joloba. Por que Joloba? Não sei. Porém, quando vejo o bichão pelo espelho, percebo que, diabos, outro não poderia ser o apelido dele. ? Joloba mesmo.

Mas, óquei. Vc pode argumentar que Joloba não é um apelido manhoso. Talvez não seja mesmo.

Na verdade, sei lá. Vou esperar o seu texto com sua opinião, para pensar melhor.

Abçs


RESPOSTA:
Senhor Samsa,
mas Joloba é perfeito para quem é quase uma barata. Você tem razão. Para esse futuro texto, mais uma vez teremos que dissertar bem sobre cada caso. Samsa e Joloba casam com harmonia. Acho que nenhum dos dois se sente ofendido com tal homenagem. Sua namorada deve ser uma pessoa muito sensível. Abs (apenas em você, não no Joloba),
Careca

 
Gregor Samsa
2007-02-23 15:02:15

Careca,

Áhhhhhh…bem que eu queria ser uma barata. Na verdade eu sou um rola-bosta, como a minha nova empregada não cansa de me chamar. Rola-bosta, se minha memória não falha, é uma espécie de besouro.

Teoricamente besouros não são tão escrotos como baratas, mas eu tinha que ser logo dessa espécie? Rola-bosta? Coisas do Franz…ts ts ts

No mais, foi bacana descobrir esse site. Só uma crítica: vcs precisam divulgá-lo melhor, pô. Eu cheguei aqui meio que sem querer.

E parabéns. Vc escreve muito bem, coisa que é rara hoje em dia, mesmo em jornais.

Abçs


RESPOSTA:
Samsa,
sua vida me parece um tanto agitada, lotada de apelidos carinhosos. Rola-bosta… Pelo menos você não deixa a merda acumular, certo? Quanto ao seu comentário crítico, eu concordo. Tem sugestões? Nosso parceiro (UOL) não cumpriu algumas - nenhuma, pra ser sincero - promessas de divulgação. Por isso ficamos assim, náufragos na rede. Mas contamos com o apoio da formidável massa crítica que aparece por aqui, espalha nossos conceitos e volta trazendo carinho e audiência. Eeee. Abraço e obrigado,
Careca

 

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