Macho pero no Mucho
 
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Drogas

09/03/2007 - 1h44

A rosa do presidente George W. Bush

Estava escrevendo um artigo sobre por que as mulheres gostam de apanhar, quando escutei a primeira explosão. Bagdá? Torres Gêmeas? Bala perdida? Novo carregamento de cocaína? As informações do mundo globalizado se atropelaram na minha cabeça. Pouco tempo depois, outro bum. Desta vez com alguma gritaria.

Tomei os mililitros de uísque barato que ainda suavam no copo e parti para o ataque. Moro a uma quadra do Masp, o Museu de Arte de São Paulo. Lá, segundo escutava no rádio, mais de seis mil pessoas tentavam fechar a av. Paulista (a principal de São Paulo) em protesto contra a visita do presidente norte-americano George W. Bush ao país.

“Baixou o Ernest Hemingway”, pensei feliz. Finalmente poderia participar de uma guerra. Eu seria o arauto das transformações.

Peguei um bloquinho para narrar o dia que abalou a América Latina. Estava alerta o suficiente para derrubar um czar ou mesmo invadir a bastilha. Cortaria cabeças, se a revolução assim pedisse.

Na pior das hipóteses escreveria um artigo para este sítio sobre as relações entre homens e mulheres em eventos políticos. A idéia era falar quais os xavecos e cantadas possíveis num bom rala-e-rola cívico.

Cheguei a tempo de sentir a suave ardência dos restos da fumaça de gás lançado pela polícia. Em dois minutos, minha garganta queimava e os olhos lacrimejavam. É um pouco pior do que comer feijão com pimenta baiana feito pela sua tia sem paladar.

O baque me jogou no meio de um zapping de discursos. Dois carros de som parados embaixo da marquise do Masp despejavam palavras de ordem. As mais comuns: genocídio, fora Bush, assassino, fora FMI, genocida, fora Alca, imperialista, fora daqui e outra sucessão de foras.

Já dentro da pequena multidão, tentava entender os motivos das bombas. “Cara, é a volta da ditadura. Não vejo algo parecido desde maio de 68”, disse um homem fantasiado de Bin Laden. “Maio de 68?”, pensei. O que aquele terrorista fajuto quis dizer com “maio de 68”? Por acaso ele estava em Paris em maio de 68?

BUSH – VAI TOMÁ NO CÚ

Sobre a cabeça, nada de aviões. Contrariando a canção de Caetano, sobre a cabeça apenas helicópteros de emissoras de TV. Sob meus pés, nenhum caminhão, mas sim restos de um boneco – queimado - do Bush.

bush

Centenas de bandeiras vermelhas, logos do PSTU, PSOL, CUT, cartazes com o rosto do Bush usando um bigodinho parecido com o do Hitler e uma enorme faixa com os dizeres “Bush – Vai Tomá no Cú” completavam o cenário. Pensei que ia encarar uma cena de Brecht. Mas a coisa toda estava mais para “Paraíso Tropical” mesmo. Um Projac dos comunas.

As mulheres alteradas continuavam seus discursos nos microfones e pediam sangue. Então era assim a comemoração do tal Dia da Mulher? Bela vingança.

Elas queriam a retirada das tropas do Iraque, imploravam para que Lula não recebesse o gringo malfadado e acusavam tudo e todos. Desciam a lenha mesmo. Se a Justiça brasileira não tivesse a pecha de ser lenta, provavelmente pediriam para que o chefe dos Estados Unidos respondesse pelo assassinato do menino João Hélio.

Mudavam as vozes, mas não o conteúdo. Depois de atacar Bush, o negócio era elogiar o Chávez e sua política. “Vamos implantar a revolução bolivariana no Brasil”, uma menina bem jovem berrou. “Isso aí é mesma coisa que o comunismo, né?”, uma garota de seus 15 anos me perguntou.

COMERCIAL DE CALÇA JEANS

A platéia estava mais interessada em tirar fotos com seus celulares. Registrar o fato. E se um dia a Globo mostrar que aquilo foi importante?

“Um pessoal ficou ferido. Beleza. Agora sim dá manchete”, um menino passou gritando ao meu lado. Estava de coturno, camiseta vermelha e um meião na cabeça que deixava apenas seus olhos e boca de fora. Vi que meu artigo sobre “xaveco no conflito” tinha ido para o espaço.

O xingamento continuava no palanque móvel. Agora sobrava para os policiais, que eram eleitos como inimigos do povo. “Vamos parar São Paulo e mostrar que o Brasil é contra a visita desse imperialista. Fora Bush, fora FMI, fora Alca e fora Haiti”, dizia o slogan. Haiti?

Poucos faziam coro, afinal as câmeras apontavam para algum lugar próximo do Parque Trianon, do outro lado da avenida. Todos correram para lá.

Também fui nessa onda e vi um garoto com corte moicano no cabelo e mais cinco ou seis pessoas gritando palavras de ordem e pedindo liberdade de expressão. Os agentes da lei, igualzinho nos filmes, levantavam os escudos e olhavam com cara de tédio. Parecia um antigo comercial de calça jeans. Encenação? Acho que percebi todos rindo em algum momento.

Um homem barbudo, cabelos grisalhos, se aproximou e me entregou um panfleto. Eu agradeci. Ele perguntou o que eu fazia para ajudar na expulsão desses ianques do país. Disse que todo dia só tomo Coca-Cola Light. É minha contribuição para ferrar o sistema. “Boa, companheiro. É isso aí”, ele me cumprimentou.

A ILHA

A polícia conseguiu formar um corredor polonês e liberou um trecho da avenida. O vermelho da marquise do Masp e das bandeiras transformou o lugar numa ilha. Se uma sonda fotografasse o mundo naquele instante, identificaria alguns pontos socialistas – seja lá o que isso signifique -, como a Venezuela, Cuba e o Masp.

Embaixo do museu, banquinhas vendiam DVDs com sucessos da esquerda, entre eles filmes sobre Che Guevara, Trotsky e até mesmo o brasileiro “Cabra Cega”, de Toni Venturi, que mostra o cotidiano de um guerrilheiro ferido num apartamento de São Paulo.

Comunista, trotskista, socialista, bolivariano, muçulmano, iraquiano… Todos eram qualquer coisa, desde que contra o indesejado visitante.

A cem metros dali, sentido Consolação, o cotidiano da maior metrópole do país seguia seu cordial rumo. Mulheres passavam apressadas com suas rosas, gentilmente oferecidas por causa do Dia da Mulher; outros catavam latinhas do chão; e um sujeito de camisa amarela gritava enquanto acendia um cigarro: “Baderneiros. Tudo professor de história aposentado”.

rosa

Comprei numa banca a “Playboy” (entrevista com Millôr, pessoal!) e a “Piauí” (capa do Art Spiegelman). Fiquei um tanto preocupado. Será que iriam achar que isso era coisa de capitalista selvagem? Na capa da revista masculina, uma assistente de palco do Luciano Huck… É, poderiam pensar que eu era um porco explorador sim…

A ROSA

Voltei para a manifestação, que começava a se dispersar. Um grupo de garotos bebia cerveja e discutia a falta de mulher bonita no local. Pedi licença para entrar no debate e concordei com eles. Expliquei que participei das passeatas dos “Caras Pintadas”. A molecada me olhou com admiração. E arrematei assim: “Tinham mais gostosas. Vocês nasceram na época errada”.

Então segui. A festa tinha terminado. Sobre a cabeça, nem o avião do Bush – que, aliás, ainda não tinha desembarcado no país – nem os helicópteros. Todos correram para ver se iriam aparecer no noticiário. “Mãe, acho que vou estar na Globo. Pede para o pai gravar”, a pequena aprendiz de revolucionária sussurrou ao celular.

E então aconteceu. Eu me deparei com uma rosa. Uma rosa vermelha jogada no chão e pisoteada, incorporada ao asfalto. Ao lado, um cartaz com a cara do Bush, que portava um garboso chifrinho e segurava um tridente.

Tentei descolar a rosa do piche. Mas ela preferiu ficar por lá, ao lado do presidente. A rosa, contrariando o poema de Drummond, morria, e não nascia. E ninguém mais ligava pra ela. O mundo de novo era só asfalto. E silêncio.



por Careca

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6 Comentários »

Josef K
2007-03-09 09:58:46

Careca

Curiosamente, também participei da famosa manifestação dos caras pintadas. Ops, eu disse manifestação? Desculpe, eu quis dizer carnaval de rua. Nada além disso.

Confesso, velho, que nunca vi um espetáculo tão bizarro: de um lado, jovens felizes por matar aula, sambando mais que azeitona em boca de banguela; de outro, os comunistas tupiniquins, com suas velhas bandeiras vermelhas e seus gritos histéricos, burros e vazios ao microfone.

Triste, né?

TRISTE NADA!!!!!

Careca, eu sei que isso vai parecer papo de velho, mas vc lembra? Lembra de como foi bom? Incontáveis gatas, suadas, fazendo trenzinho de carnaval. As meninas Ches, revolucionárias, maravilhosas, com blusinhas decotadas, rosto e colo (ai, ai) pintados, lindas, lindas. E o que dizer, então, do sentimento de liberdade que tomou conta de muitas? Liberdade para gritar palavrões, xingar políticos e, inclusive, DAR PARA VOC?? Ahhhhhhhhhh….foi bom demais.

Sério. Eu, então com 17 anos, devo bons momentos ao movimento. Não, não tenho a ilusão de que eu carquei o Collor, longe disso. A Globo carcou o Fernandinho, nós apenas fomos figurantes.

Porém, graças ao movimento, carquei a D___, estudante de jornalismo da Casper Líbero dois anos mais velha do que eu e, ainda, troquei telefone com a A___, do Anglo da Tamandaré, japonesinha lindinha que seria carcada mais tarde.

Bons tempos.

Infelizmente, nos dias de hoje, apesar das bandeiras vermelhas, dos professores de história aposentados (gostei dessa) e das frases burras, os movimentos perderam o que eles tinham de melhor.

Mas é compreensível.

Eles não têm como competir com as Micaretas.

[]

RESPOSTA:
Velho Samsa,
agora, só nos resta mesmo o carnaval da Bahia. Abraço,
Careca

 
annnonnnimo
2007-03-09 11:18:42

Olha só o que sao so eleitores do bush…
Leia aqui

 
annnonnnimo
2007-03-09 11:19:08
 
GESI
2007-03-16 11:25:42

UM MUNDO ONDE O Q INPORTA E RECLAMAR E APARECER NAO IMPORTA COMO E PORQUE, E DIFICIL VER ALGUEM Q REALMENTE SE IMPORTE COM ALGUMA COISA
NOS DIAS DE HOJE, SE A GLOBO ESTA LA TEM ALGUM IDIOTA ANTI-SISTEMA QUE POR UM MINUTO TIRA DA GARGANTA SEU LADO COMUNISTA, (NAO TINHA FOTOS DE NINGUEM COM UM TENIS NIKE? ) SEM REALMENTE SABER O CHE GUEVARA SIGINIFICA.
VIVA REVOLUCAO - DO CAPITALISMO ORDENADO OND CADA UM PODE E DEVE TER DIREITO A FAZER SUAS ESCOLHAS.

 
Ane Brasil
2007-04-14 16:00:54

porrqa, magrão, eu tinha 14 anos na época do fora collor e fiquei enojada com a putaria da gurizada matando aula e sambando pra derrubar o presidente!
Depois de 5 minutos de fora collor entendi que a galera queria mesmo era azarar e tomar ceva… bando de alienados…
não me surpreende que no tal de “fora bush” fosse diferente….
Ah, mas só quem foi a um fórum social mundial (eu fui a 2!) sabe o que é a “esquerda libertária” hehehehe… com a erva que foi consumida em Porto Alegre naqueles finais de janeiro dava pra reflorestar o Saara hehehehe!

 
Thiago Nébias-MG
2007-07-30 14:41:50

A rosa tem sim algo parecido com o Bush?

Uma tem botão e o outro é um c…..

 

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