
Estou aqui de olho em “O Passado”, livro do argentino Alan Pauls, que acaba de chegar às livrarias. Como diria o homem do SBT, ainda não li, mas algumas colegas de trabalho já, e não se cansam de arremessar elogios para a obra.
O lançamento foi capa de alguns cadernos culturais – curiosamente, no mesmo dia – e as reportagens traziam entrevista com o autor. Um trecho da história de “O Passado” me chama a atenção, pois lida com a onipresença de um amor fracassado.
O protagonista masculino, Rimini, é constantemente perturbado pela presença de sua ex-mulher Sofia, que se torna uma espécie de zumbi – “nunca se sabe se existe ou não, se está viva ou morta, se está presente ou ausente, se é visível ou invisível”, segundo o escritor.
Eu acredito nos zumbis. Principalmente em uma mulher zumbi.
Não essas de filmes – como as pequenas de George Romero ou da série “Extermínio” -, mas sim aquelas que passaram pela nossa vida, fincaram raízes, apareceram nas fotos e simplesmente se foram.
Quantos mortos-vivos caminham pela Terra neste momento? E nós somos os zumbis de quem?
Todo mundo que já amou um dia tem seu zumbi de estimação. Melhor ainda: também você é a assombração de alguém. Pois o amor não deixa nada – nem ninguém - impune.
Nós carregamos durante os anos uma coleção particular de rostos, carinhos e misérias deixadas por aqueles que um dia guardamos debaixo de nossas esperanças de felicidade eterna.
E mesmo que tentemos esquecer, abandonar – amigavelmente ou não – aquele destino, ele sempre ficará nos observando.

Os zumbis são eternos enquanto a gente durar. Eles são frutos de nossa imaginação sem fim, de nossa curiosidade mórbida pelo outro.
Hoje, com orkuts e um mundo cada vez menor, esses seres ficam cada vez mais próximos e vivos.
Eu sei que você, neste instante, está pensando no seu fantasma predileto. Naquele garoto que um dia você transformou em homem. Naquela menina que hoje é apenas um ponto num mapa de sentimentos.
Ah, mas eles estão sempre aí. Os zumbis sobrevivem a tudo, a enchentes, desastres, tsunamis, casamentos, intensos casos, paixões platônicas. E isso é bonito.
Quando você menos esperar, você o avistará tomando Coca-Cola numa rua fria de seu pensamento.
A experiência amorosa é o casulo dos zumbis, o útero do desespero que é viver com o outro.
Eles continuam para provar que jamais vamos nos libertar da beleza de um beijo, de uma saudade, de um desgosto, de um contato.
E assim nos seguimos num eterno jogo além de qualquer explicação. Vamos nos alimentando de novos zumbis e, ao mesmo tempo, nos tornando assombrações carregadas de lembranças, amor e desilusões.
É impossível matar um amor. Fim.
Careca
Clap clap clap clap clap clap
Isso sim, meu caro, é que é poesia.
Ao ler o seu texto, notei uma boa dose de melancolia que tempera as suas palavras. A mesma melancolia agridoce que eu, pelo menos, experimento quando a minha morta-viva de estimação borbota em alguma esquina do meu pensamento. Tomando uma coca-cola ou não.
A publicação do texto numa bela tarde de outono não poderia ser melhor. Fosse no verão, o efeito não seria o mesmo.
Abçs
COMENTÁRIO:
Gregor Pompom (eu deveria ter desconfiado),
pena que a melancolia não escolhe estação, certo? Abraços,
Careca
Excelente texto, bem melancolico como disse nosso amigo Gregor.
Em determinado trecho, voce diz que os zumbis sobrevivem a tudo, e que isso é bonito.
Bom, discordo disso, pois zumbis - mortos-vivos - nao deveriam povoar nossa mente. Nao acho bonito relembrar de trechos que foram bons da nossa vida, mas que hoje ja nao existem mais. Machuca relembrar de algo que gostamos muito e que em determinado momento morreu.
Infelizmente, voce tem razao. Eles sempre continuam povoando nossa mente.
Mas seria mais facil que tivessem morrido de vez.
COMENTÁRIO:
Tania,
o problema da tese é que nós também somos zumbis de alguém. E se essas assombrações morrerem, significa que a gente também tem chances de passar dessa para melhor. Rere. Então, melhor conviver com eles - nós mesmos. Beijos,
Careca
Tania
Concordo em gênero, numero e grau.
Dói (e como ! ) ver essa verdadeira hecatombe de gente morta povoando coisas que foram importante pra nós…
Ah, como eu queria ter a famosa Calibre 12, que todo o filme de zumbi tem.
É, ser zumbi ou ter um zumbi eu diria que é certo na vida de qualquer um. Um amor não se mata mesmo, mas ele acaba sozinho. O problema é quando ele é interrompido e ficamos com a pior sensação do mundo…e nós mesmos escolhemos sermos zumbis e transformamos aquela pessoa em zumbi.
Mas um texto muito bonito, Sr Careca
Beijão!
O melhor texto da última semana, sr. Careca. Filosofas muito bem sobre o amor.

Não tenho condições de deixar um comentário decente. Estou profundamente deprimida.
Sério.
Abs.
COMENTÁRIO:
Lo,
não era a intenção. Ou era. Nunca sabemos. Abs,
Careca
Não fique…
Vc me deve uma dança…*rs*
E deprimidos não dançam.
Ae Careca !!
MACHO PERO NO MUCHO !!!
ja Pode descolar uns telefones!!
Mto bom o texto!
eheheheheheh
MARCIO H.
Putz!!! me passou na mente algumas zumbi´s!!!
muito bom careca .
Cara, é primeira vez que escrevo um comentário para este site, apesar de visitá-lo com alguma freqüência há uns meses, quando os vi no Programa do Jô, e o motivo é o seguinte: SIMPLESMENTE BELO ESSE TEXTO! Sinceramente, concordo com nosso amigo personagem kafkiano, que disse \”isso que é poesia\”.
Parabéns!
Abraço.
COMENTÁRIO:
Obrigado. E cuide-se. Abraços,
Careca
Ué ? Vetou ?*rs*
Será por isso então q há um zumbi teimando em me perseguir? :/
beijão Careca……
COMENTÁRIO:
Os zumbis têm motivos que a gente desconhece. Sorte. Beijos,
Careca
Zumbi…Karma…Enfim…
Nós sempre temos…Quando os momentos foram especiais, quando toda a relação foi especial…Não tem como esquecer….jamais…
Qualquer comentário que eu faça pode alterar o efeito que esse texto causou em mim.
Bju
Bia
e eu achando que era uma das poucas almas assombradas , nuss to me sentindo dentro do filme madrugada dos mortos todo canto que se olha tem uma zumbi e nao impota quantas vc mate sempre apareçem mais e mais e mais ………..
gostei muito to texto em fim !!!
COMENTÁRIO:
E elas ainda querem nosso cérebro. Abs,
Careca
E de tudo, o mais bacana que você escreveu: \”é impossível matar um amor\”. Vivendo a experiência do zumbi, eu aprendi que amor não se mata nem com a impossibilidade da união, nem com o fim da relação, nem com outro amor, nem com outra paixão. A gente ama muitas gentes, de muitas formas, em muitos lugares, mas quando ama sabe, e segue amando. E quando isso acontece é bonito e a gente passa a respeitar o zumbi, porque ele é parte do que nós mesmo somos. E isso não indigna, não causa mágoa, não acaba ou morre. Por isso eu quero tanto ler esse livro.
Bjs
COMENTÁRIO:
Não indigna, não causa mágoa, não acaba ou morre… É isso. Beijos,
Careca
Bem, eu havia escrito algo sobre os meus fantasmas…
Alguns mais nítidos, outros mais distantes.
Eu tenho algo escrito sobre isso…
Fica mais fácil: [http://partidomacho.blogspot.com]
ATENÇÃO: Não me responsabilizo pela reação das pequenas e dos amigos ao lerem os textos lá escritos.
Principalmente as feministas…*risos maldosos*
COMENTÁRIO:
Danou-se… Rara. Abs,
Careca