
Gosto de cicatrizes. Admiro essas lembranças. Tenho prazer em decifrar algumas. Também invejo várias. E planejo conquistar outras.
Defina cicatriz da maneira que preferir. Eu mesmo tenho aqui uma dezena de conceitos para essas danadas: estrias, defeitinhos, riscos, marcas, sulcos, rugas, pé de galinha, coisinhas esquisitas, bizarrices, idiossincrasias do corpo, etc. Uma marca do tempo, enfim.
Todas formam mapas que ilustram nossa vida.
Mostre-me uma cicatriz e eu te direi quem és. Acho que a concordância está errada (certo, revisor?), mas o recado é claro.
Penso nas benditas porque vi – no “Roda Viva”, da TV Cultura – uma entrevista com o escritor e roteirista (apesar de ele acreditar que as duas palavras resultam no mesmo produto: literatura) Guillermo Arriaga (dos filmes “Amores Brutos”, “Babel”, entre outros).
Ele confessou que acredita nas cicatrizes. E não se conforma com a tentativa de apagar essas marcas por meio de raios, cirurgias ou facas com a ponta quente.
Para ele (e estou nessa também), as cicatrizes contam a nossa história.
Não sou maluco (pelo menos não no sentido adotado hoje como sinônimo de doidice). Portanto sei de certas necessidades estéticas. Respeito cirurgias reparadoras, embelezamentos, mudanças estruturais por motivos de saúde, queimaduras, etc. Acho que vocês entenderam.
Mas não consigo compreender a alteração de alguns sinais. Então a turma prefere um botox ali, um silicone acolá, um preenchimento, uma pequena operação, chá verde, etc. em vez das cicatrizes originais de fábrica. As pequenas me contam que é por vaidade.
E começo a perceber todas com o mesmo sorriso, o mesmo cabelo e as mesmas cicatrizes (os dois furinhos da lipo). Por que apagar ínfimos – mas significativos - sinais da nossa história?

Sei porque o Harry Potter é o líder dos Mister Ms de Hogwarts. O pequeno mágico ostenta – como medalha – uma marca no meio da testa. É a sua sina, o seu pesadelo e a sua glória. Ninguém ainda sugeriu uma plástica para o menino? Por que será? E como esquecer os mistérios que Scarlett Johansson carrega – pra ficarmos em outro exemplo recente – em “Dália Negra”?
Por isso as tatuagens (certo, Gordo?), os piercings, as linhas da mão… Tudo nos leva para um mapeamento de sentimentos. Esses sinais são nossos gritos por compreensão, nossas dicas, nosso mapa do tesouro.
Quantos heróis e vilões – enfim, a rapaziada que faz a diferença – têm uma marca que os distingue? Muitos, eu sei. Prometo fazer a pesquisa.
E então pagamos para que acabem com cada trilha, cada trajeto de nossa existência. Medo que nos descubram, medo que finalmente o outro saiba quem somos?
Um dos diálogos mais bonitos entre um casal que está se conhecendo passa necessariamente pela descoberta das cicatrizes. Sempre rola um:
- Uau. Como você fez isso?
- Você não tinha reparado? Ah, faz tempo. Eu tinha uns 12 anos e…
Pronto. Uma viagem. Um eterno retorno. O início do fim.
Eu prefiro as pequenas com cicatrizes, com os sinais de vida. Elas não têm medo de contar suas histórias. Elas não têm medo de curtir toda a dor e beleza deste mundo.
Bonito isso, eu nunca tinha pensado em cicatriz dessa forma, como uma maneira de reviver…Reviver momentos, ou quem sabe até dores, mas n importa voltar no tempo é sempre bom…
Como sempre, teus artigos apavoram…
Tenho indicado mto o site de vcs, viu?
Eu gosto mto, e minhas amigas também estão gostando.
Bjs
COMENTÁRIO:
Valeu, Jaque. É pra isso que escrevemos. Eu acho. Bjs,
Careca
«Elas não têm medo de curtir toda a dor e beleza deste mundo.»
adorei, careca!
beijo!
Cara lembrei do filme o pequenino, que o malandro se passa por criança, vai no médico e o médico fala, nunca vi oum bebe, com uma çicatriz, uma marca de facada, nem com um ponte na boca, muito bom véio, acredito nisso também, na verdade as pessoas, querem impreçionar, estamos numa época que as pessoas, querem ser mais estéticas, por que o natural, esta sujeito a falhas e tudo mais, abraço franjinha
“coitadinho do indioma brasileiro…”
Como mulher com algumas cicatrizes, diga-se de passagem nenhuma delas de cirurgia plástica, fico feliz em ver que a vaidade das mulheres é mais para outras mulheres que para os homens. Os homens ainda apreciam algo além da aparência. Pelo menos alguns deles, né?
Nossa! Queria ter escrito isso. Adoro cicatrizes. É um encanto… Alias, adoro particularidades, histórias, dores, pessoas… e as cicatrizes geralmente trazem tudo isso. Ironicamente tenho uma ótima cicatrização e, além das marcas naturais que acometem os seres humanos, nenhuma cicatriz que me recorde traumas ou histórias de vida. Então tratei de faze-las por minha conta mesmo muito coloridas e cheias de mensagens…
Muito bacana esse escrito.
Bjs
Por falar em filme e cicatrizes, já viu um filme chamado The Pillow book? Bonito demais… a moça, num ritual herdado do pai, todo aniversário busca amantes pra escrever em seu corpo. Mistura algumas das coisas mais bonitas que conheço: corpo, palavras, memórias e histórias. Ah, e também as cicatrizes, ainda que estejam em forma de escritas temporárias, os escritos no corpo me fizeram pensar em cicatrizes…
Bjs
COMENTÁRIO:
Sim. O Greenaway é um sujeito abusado. Goste-se ou não, o cara teste alguns limites do cinema. E deixa sua marca. Pegou? Marca, cicatriz… Deixando os trocadilhos horríveis de lado, vi esse filme há uns 10 anos. Lembro que na época gostava muito do estilo do diretor. Hoje, não sei. Será que perdi essas cicatrizes/memórias? De qualquer maneira, excelente lembrança. E isso é o que importa, não? Bjos,
Careca