
Sai arrasado do formidável “O Engenho de Zé Lins”, documentário de Wladimir Carvalho que recupera o legado do escritor paraibano José Lins do Rego (“Fogo Morto”, “Menino de Engenho”, “Moleque Ricardo”).
É uma pena que poucos de nós acompanhamos uma coisa dessas. Na sessão em que eu estava, apenas mais cinco pessoas choravam ao viajar pela formação de um de nossos maiores escritores (os depoimentos de Cony, Suassuna, etc. colocam Zé Lins lado a lado com Guimarães Rosa – convenhamos, não é pouca coisa).
Talvez seja a época, talvez fosse o meu estado de espírito, mas fui embalado com tanta força pelas nostálgicas imagens que precisei, após o filme, de um tempo trancado no banheiro para não sair chorando feito moça pela avenida Paulista.
“O menino é o pai do homem” é a frase de Machado de Assis que abre o filme. A partir dali, nos deleitamos não apenas com a vida e obra de um flamenguista passional e talentoso, mas sim com toda a tragédia e dramaticidade de uma infância sapeca num engenho da Paraíba - o que me jogou diretamente nos meus poéticos 8, 9, 10 anos de idade. Mais precisamente, fui arremessado aos natais de quando eu ainda era um machinho pero no mucho, em Itu, no interior de São Paulo.
Vocês se lembram como eram os seus? Aqui na minha cachola ainda restam dezenas de lembranças – que certamente me moldam hoje, assim como as travessuras e deslizes do pequeno Zé Lins influenciaram o notável escritor.
O natal era na fazenda dos meus tios (Toninho e Aurora – nomes já lúdicos), que até hoje fica ao lado da cidade onde tudo é grande. A família inteira se permitia reunir em volta da Nona, a matriarca capaz de não só juntar opostos como viver até à beira dos cem anos.
O quente mesmo era o churrasco no dia 25. Aí sim todos apareciam, bezerros eram sacrificados e nós (que estávamos curtindo as férias por lá) éramos dispensados das tarefas diárias (ordenhar vacas, limpar estábulos, cortar cana, etc.).

Durante toda a manhã, recebíamos os primos, as tias, pedíamos bênçãos e apostávamos quem iria representar o principal papel do dia: ser o Papai Noel.
Todo ano algum familiar se revezava para interpretar o famoso personagem. Na hora do almoço, uma caminhonete carregada de pacotes e presentes subia a ladeira que circundava a casa. Em cima da caçamba, Papai Noel agitava um sino e acenava. Buzinas, latidos, cacarejos, mugidos e a gritaria da criançada embalavam todo o trajeto.
Quando o majestoso senhor de vermelho chegava, começava a ordeira distribuição dos sacos - estamos falando de 50, 60 pessoas e um igual número de embrulhos.
Carrinhos, bonecas, bicicletas, videogames… A coisa toda era realmente mágica e abundante. Abríamos tudo aquilo como se ali estivesse o segredo do mundo. Éramos felizes.
Depois dessa imensa negociação, os adultos enchiam a cara de carne e cerveja. Nós corríamos para o campinho e passávamos o resto do dia jogando futebol. Só interrompíamos as pelejas para importunar os maiores, que insistiam em ficar bebericando caipirinhas e jogando truco (em vez de nos ajudar a formar times competentes nos gramados).
À noite, exaustos, trocávamos impressões sobre os presentes e contávamos as fofocas do dia (a prima que tinha crescido; o tio que se divorciou; a namorado do primo que deu vexame; os peitinhos de uma amiga da prima; etc.).
Dormíamos. E no dia seguinte já iniciávamos a contagem regressiva para o próximo natal.
Hoje a coisa é bem diferente. Talvez seja o mundo. Talvez seja meu estado de espírito.
Tenho nostalgia e não melancolia (Cony explica direitinho a diferença no documentário).
Mas espero que neste natal todos possam se sentir daquele jeito, com aquela espécie de felicidade de quando éramos meninos.
Machado tem razão. O menino é pai do homem.
Pô Careca, fiquei até com saudades dos natais assim que eu não tive. Mas ainda dá tempo né?
Espero que aos 23 (completo no próx. sábado), eu consiga construir minha primeira boa lembrança de natal.
Desejo aos meninos do MPNM e a todos os leitores do site, um natal reflexivo, divertido e inesquecível!
A paz…
bjs bjs
Ah!Se o menino que passava os natais em Itu for o pai do ‘homem-Careca’, acho que ele é um grande homem.
COMENTÁRIO:
Espero que seja a mesma pessoa, sim. Um pouco mais careca e gorducho, mas ainda lembra aquele menino. Beijos e bom natal,
Careca
Mais um grande texto Careca, e te confesso que me lembrei dos meus antigos natais, ao redor também da minha avó e família.
Hoje vejo que infelizmente o natal já não é encontro com a família e amigos, confraternização e alegria.
O que eu percebo é um consumismo exarcebado, as lojas e shoppings lotados, e caos pra todo lado! Parece que o mundo vai acabar, e se não comprarmos muito de tudo estamos perdidos!
Pelo menos minha família deu um jeito de reverter isso. Uma tia deu a idéia de ao invés de comprarmos presentes, iríamos fazer os presentes pra quem amamos, daí sim rola aquele espírito gostoso do natal, de união, dedicação e felicidade.
Um feliz natal e um próspero ano novo para a família MPNM!
COMENTÁRIO:
Bela idéia. Quem sabe assim escapamos um pouco dos shoppings. Abraços e um 2008 dos bons pra você.
Careca
AAAi, que saudade dos meus natais assim, tb foram inesquecíveis!
Depois que a gente cresceu um pouco, mudamos a festa pro reveillon (já que ninguém mais acreditava em papai noel…), mas que também eram ótimos, serão lembranças eternamente boas….
Como tenho duas famílias - papai e mamãe - este ano vou inovar, passarei com minha família paterna, que sabe não apresento aos meus filhos a maravilha que são as confraternizações de família né… ainda tenho esperança de reviver com eles esses bons momentos da vida!
Um Natal iluminado prá você Careca!
Bjos***
COMENTÁRIO:
Obrigado. Pra você também. Beijos,
Careca
Nossa amei o artigo… sabe acho que o segredo é que quando crianças sentimos o encanto do natal…ter nossos pais juntinhos da gente já não precisava de mais nada e ainda assim vinham os presentes…
Com certeza meus melhores natais foram na infância…
Dá uma saudade enorme… ainda bem que existe toda esta saudade, afinal significa que bons momentos foram vividos…
Feliz Natal… e que a esperança e a alegria desta época estejam sempre presentes durante todo o novo ano…
Beijo…
COMENTÁRIO:
O negócio é ficar com esse espírito o ano todo. Feliz pra você também. Beijos,
Careca