
Ainda não sei por que o texto abaixo está neste sítio (pretensamente “de humor”). Já, já escrevo algo também supostamente engraçado. Mas achei por bem lançar as linhas a seguir após discutir sobre fraternidade com o cineasta Luiz Montes (que para ser inglês falta apenas a casaca e a cartola) e o segundo maior crítico de cinema do Brasil (ou primeiro nos dias em que o Inácio Araújo está pouco inspirado), o PSL.
Falamos sobre perspectiva histórica enquanto entornávamos caipirinhas, chopes e doses de uísque nas pedras. E sobre aqueles momentos que na época em que ocorreram foram simples abraços e beijos, mas hoje se revelam (e às vezes os clichês funcionam) divisores de águas.
Quem não tem um momento assim? Que parecia nada e hoje é nossa pedra de salvação, nossa bóia, nossa lanterna na popa?
Uma única vez abracei meu pai com aquela volúpia que achamos ser possível existir entre um filho e sua figura paterna. Ele estava deitado na cama e tinha acabado de se enfiar no colchão após ouvir minhas desculpas por mais uma noite sem dar notícias.
Percebi (também chorando escondido –sempre discreto, sempre) que aquela era uma daquelas situações de “leia o livro, veja o filme e escute o disco”. Um momento único, uma virada de sentidos e sentimentos, a minha queda do Muro de Berlim, o ataque a Pearl Harbor, a descoberta da roda, o suicídio de Getúlio e, se já tivesse acontecido, o atentado a Torres Gêmeas.
Munido dessas informações e (como dizem os gringos) com muito feeling, parti para o conflito. E o pior: meu pai levava vantagem por estar em seu campo de batalha (e contar com a possível intervenção da mãe e esposa –apesar que mãe é sempre neutra).

E lá estava ele. Deitado. Aparentemente descansando após ter jogado diversas munições verbais em minha direção (a saber: moleque, irresponsável, fiquei preocupado, da próxima vez avisa, você está bêbado?, usou camisinha?, te amo, por isso me preocupo).
Após ter conquistado diversas jardas (sempre quis usar esse sistema métrico) e estraçalhado grande parte de minhas tropas, o general deixava os pensamentos tortos e a carcaça esquecida no lençol de seu quarto. Ao lado, apenas a mulher, atenta feito Lady Macbeth, ciente da tragédia que estava por vir.
Parei de chorar e acordei soldado por soldado. Mandei todos se vestirem silenciosamente. Selei pessoalmente cada cavalo. Montamos. Ordenei que todos jogassem as armas de fogo ou brancas. Iríamos de peito aberto. Sem nada temer. Sem nada esconder. Pedi para um deles carregar uma bandeira branca, caso encontrássemos resistência. O caso não era matar ou morrer. Era apenas morrer. E renascer outro.
Invadi a fortaleza e de súbito me joguei embaixo da pesada coberta. Depois do Cavalo de Tróia, essa certamente foi a maior surpresa recebida por um grande estrategista.
Ao me ver desarmado, ele me abraçou. Eu retribui o suposto carinho. A mãe passou a observar a cena como um bom juiz faria. O pai e eu começamos a chorar. De ambos os lados, os pedidos de desculpas por uma guerra inútil.
Passamos a noite abraçados e contando os mortos. Havia muito o que reconstruir. Os excessos de ambos os lados foram perdoados e viraram objetos de escárnio. O paterno virou fraterno. Eu não era mais filho. Tinha sido promovido a homem, a general.
Foi a única vez em que abracei e chorei com meu pai daquele jeito que assistimos nos filmes. A única. E só isso, algo tão miserável e ordinário, valeu por toda uma vida de confissões e obrigações. Um único gesto que salvou a vida de milhares de pessoas.
E pensar que essas coisas acontecem todos os dias por aí.
Emocionante seu post… Como disse, essas coisas acontecem todos os dias por aí
Mas acho que muitas vezes a distância esquisita de quem amamos depende também de nós. Os pais geralmente à matém, não sei porque. Ou sim, porque é o homem, o pilar, o forte. Há um acanhamento de ambos os lados. Dpois que me tornei adulta, derrubei a muralha. E disse milhões de vezes “eu te amo” pra poder ouvir tb. E o bjo na bochecha que antecipava o abraço - que quando não era apertado - era tímido - eu reclamava: “ei, me abraça forte”…
É pena que me tornei adulta tarde e em relação à uma vida, esses momentos foram miudezas…
O problema é que as pessoas são efêmeras… Se eu pudesse voltar no tempo com o que hj sei, começaria mais cedo…
COMENTÁRIO:
Voltar no tempo será sempre um problema… Beijos,
Careca
A unica vez que isso me aconteceu também, foi no enterro do pai dele, meu avô.
e nunca mais
e não sinto orgulho por isso …
COMENTÁRIO:
Mas as coisas são assim mesmo, não é? Beijos,
Careca
Lindo mesmo, toh emocionada, de verdade.
Me deu até uma imensa vontade de abraçar meu pai, q é, em todos os sentidos, um general.
Vou ali e já volto.
Bjo.
COMENTÁRIO:
Bom abraço. Beijos,
Careca
De emocionar mesmo…coisas simples que acontecem todo dia, em qualquer lugar, e apesar de serem tão pequenas, marcam sem volta quem vive situações como essa.
Esperando não perder a chance de fazer isso um moonte de vezes.
Ow Careca, que lindo!!
É… minha família é mais ‘quente’, tem o costume de fazer tudo ao extremo - brigar, xingar, e depois se abraçar e dizer que ama… - quando mais nova, tinha raiva disso, dos meus pais atirarem primeiro prá perguntarem depois…
…mas é isso aí, se a gente não se desarma e vai de peito aberto, ficaremos sempre na esquiva, preparados prá briga, que com certeza virá.
Acho que só depois que aprendi a ver meu pai como um amigo, não como um ’superior’, é que consegui não sofrer mais com sua ausência, e pude compreender que Renato Russo tinha (mais uma vez) razão:
“Você me diz que seus pais não entendem, mas você não entende seus pais… são crianças como você, e o que vc vai ser quando vc crescer?”
Bjão***
COMENTÁRIO:
Quando a fraternidade supera a paternidade, tudo parece se resolver. Beijos,
Careca
Ás vezes nós não damos o valor necessário aos nossos pais…
Meu pai é um dos homens da minha vida, por tudo que ele fez, faz, representa, sente, demonstra… Meu héroi!
Uau.
É careca…realmente seu relato é de emocionar.
Eu por exemplo ainda n tive o previlegio de ter esse momento com o meu Pai,n por falta de vontade + sim por ocasiões da vida.
Mas para suprir essa falta,tenho uma pessoa especial q sempre me deu todo o carinho necessário para me tornar o homem que sou…MINHA MÃE.
Agora adivinha quem merece os meus parabens no dia dos PAIS??
e pro meu PAI o recado de uma musica linda…
“Pai, pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos, pai e filho talvez.”
abraço careca.