
O dia foi quente. Infernal, até. A redação onde trabalho não tem ar-condicionado. Ou melhor, o ar lá é condicionado a nos deixar completamente tontos e sem vontade de continuar a viver.
Portanto, quando finalmente apareci em casa, joguei um vinho na geladeira (já falei sobre a minha birra em relação a cervejas?), mandei ver uma dose de uísque nas pedras e esperei o jantar. Pelado.
Confesso que não ajudei a patroa. Estava absorto. Um tanto perdido em tantas vontades. E revoltado com o diminuto tamanho do meu pingolim (porra, ele não deveria ficar pequeno apenas no frio?).
Depois de um dia quente, de um inverno que esturrica a alma, não queria pensar em nada. Mesmo assim, enfiei o Paulinho da Viola na vitrola.
E então a luz se fez.
O túnel quente e úmido que ilustrava o meu dia virou um caminho cheio de lâmpadas coloridas e recheado de pastoras cantando sambas comoventes.
Depois de algumas canções de amor e outras tantas rimando com dor, cheguei ao “Sinal Fechado”.
A pequena esticou os braços e se aninhou – imagem brega, mas eficiente – nos meus braços.
Seguimos ouvindo atentamente cada acorde. Vocês se lembram dessa música?
É aquela que carrega um diálogo entre duas pessoas que se encontram durante um sinal fechado.
O papo é direto e rápido, como a modernidade exige. Nada de discursos ou mudanças de vida. O momento é praticamente desperdiçado num “oi, tchau”.

E a melodia te deixa ali, imaginando tudo o que poderia ter acontecido se a porcaria do sinal continuasse fechado. Se aqueles dois diminuíssem um pouco o ritmo para finalmente se ouvirem. Se eles prestassem atenção um no outro.
Porém, Paulinho da Viola, esse sacana velho de guerra, fez o danado do semáforo abrir. E eles seguiram suas vidas em direção ao miserável destino de todos nós.
Aí fiquei feliz pra cacete. Pois pensei que estava ali, parado, já pensando na segunda garrafa, doido pra continuar estático, pra agarrar a vida e pensar lentamente no tempo.
E lembrei do falecido Dorival. E das minhas últimas férias, dos meus pés andando a esmo por lugares nunca dantes navegados (por mim) e das alegrias todas que o nada nos proporciona.
Sorri.
Sei lá se esse negócio tem uma lição babaca ou alguma moral.
Mas ainda bem que o sinal fecha. E a gente pode pensar um pouco na vida.
Ainda bem que tem Paulinho da Viola no mesmo solo que a gente pisa.
Estou torcendo para esses faróis todos ficarem no vermelho. Chega de sair correndo e deixar nossos desejos e loucuras pra depois.
Vamos parar e decidir essa história agora mesmo. Chega de sair no pique, de fugir. Chega de desperdiçar nosso tempo com a eterna corrida desnecessária. Vamos parar.
Precisamos de muitos sinais fechados.
Só é tão bom porque é por pouco tempo, e só de vez em quando… Igual a sexo anal! rsrs
Oi Careca!!!
ai como preciso de um sinal fechado… tenho andado desenfreiada a algum tempo… rs
e a correria da vida,nos fazendo perder minutos q poderiam se eternizar!!!
beijoossss
COMENTÁRIO:
Parar de vez em quando é bom. Beijos,
Careca
Caro Careca…
Seria Cardoso um amigo íntimo (anônimo porém) de Dorival?
Seria eu alguma ponte?
Seria esse uísque que bebo - do outro lado do Oceano, às tantas da matina e sem folga do ofício há dez dias -algo compartilhado consigo? Será!, que a garrafa se vai despreencher por completo ao segundo dia, tanto bem fez a mim.
Caro Careca, a vida é doce, ainda com semáforos verdes… somos livres: pra sofrer, inclusive.
Ilha das Flores: um curta cruel: há de nós vivendo maiores misérias do que comer o tomate recusado pelo porco vizinho… pense nisso: ainda mais, e sempre. Ter a patroa pra se aninhar no peito ainda que sem fazer nada por ela num momento doméstico: nem a maior pica na lua há de valer por isso: houve uma mulher em minha vida que passou, e tantas outras que ficaram: as que ficaram se perderam em mim, e a que virou passado a quero futuro:
“Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.”
quando podes não ser orgulhoso e aceitar o amor… esse tinhosinho de merda que não faz questão de semáforos vermelhos, porque aos verdes te fazes fluir rumo a um lar, onde alguém quiçá completamente diferente de ti o espera, cheia de amor, pra um enlace que nenhum capitalismo e/ou Viola explique…
Perdoa… tem muito Led Zeppelin em meus ouvidos, e muito sangue em meu uísque.
Salvador Dalgures.
COMENTÁRIO:
Fraterno amigo, que beleza, que maravilha. Suas palavras abrem sinais, faróis e mundos. Sim, Cardoso agora é companheiro de Dorival. Os dois estão no mar (aliás, onde os faróis não são verdes nem vermelhos, mas salvam vidas). Aquela noite, que agora pertence apenas ao texto e à memória dos amantes, pedia o fim da rotação do mundo. Hoje, o papo é outro. E a existência se faz verde, livre e apressada. Ainda bem que existem os dois tipos. Então, aqui vai minha saudação ao sinal aberto. Continue com esse uísque alagando suas veias. Sempre a dar-lhes.
Careca
Ás vezes a gnt precisa repirar devagar… e olhar para os lados!
Os momentos de sinais fechados são tão raros.. é bom aproveitar!
Bjão!
COMENTÁRIO:
Vamos aproveitar então. Beijos,
Careca
Sinal fechado, tão romantico. Ha quarenta anos atrás.
Hoje em dia, sinal fechado, flanelinha, assalto, stress do super transito. Não vejo nenhum romantismo no sinal fechado hoje em dia.
Saudações Coloradas
COMENTÁRIO:
Depende de onde você estiver, Sacizão. Depende. Saudações,
Careca
Texto lindo do caramba. Fiquei emocionada ao ler (e ao reler, reler, reler). Beijos pra vc e pra patroa. Saudades.
COMENTÁRIO:
Oh, que beleza… Beijos,
Careca
Amei o post!! \o/
Adorei! E o comentário do amigo Salvador me fez lembrar: Como É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar…
Mas é tão difícil parar, não é?!
beijão
Maravilhoso!!!
Li várias vezes e tive que fuçar pra ver se achava essa música aqui no computador mas só tenho no carro… Vou ter que esperar…
Kisses!
COMENTÁRIO:
Vale a pena procurar. E ouvir. Beijos,
Careca