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Drogas

05/01/2009 - 8h37

As informantes são os paparazzi da gente comum

CENA 1 – EXT. – PRAIA – DIA

CARECA e sua PEQUENA estão deitados na areia. O local é paradisíaco. Praia com coqueiros, sombra, areia muita fina e branca, águas verdes e cristalinas. Em volta deles, apenas alguns casais. Escutamos o barulho de ondas e de motores de barcos.

Uma mulher que estava deitada próxima de Careca se levanta, olha para a água, fica espantada, pega um telefone celular, tecla alguns números rapidamente e começa um monólogo ao aparelho.

MULHER COM CELULAR – Alô? (Alegre) Amiga, amiga, amiga… Tá sentada, minha filha? Alô? (Breve silêncio) Oi? Ah, foi buscar uma cadeira… Mas não era pra sentar de verdade, sua estúpida. Era força de expressão. Deixa pra lá. Acabo de ver uma cena bizarra. Oi? Não, não é o Paulão de sunga, não. (Risos) Só você mesmo… Que nojo! Só de imaginar o Paulão de sunga… E branca ainda por cima (Risos). Bom, mas chega ou vou gastar todo meu décimo terceiro nessa ligação. Adivinhe quem está aqui nesse fim de mundo, numa ilha, distante duas horas do continente, um lugar que só dá pra chegar de barco… Neste momento, entrando na água… (Breve silêncio) Ele mesmo, você acredita? (Gritos histéricos) É, é ele, amiga. Ele, ele, ele. Calma. Eu conto… Deixa eu ver (espia a praia). Ele tá normal, de shorts. Ela é uma loira aguada, com… Vou contar… Uns dez buracos de celulite… Isso que eu consigo ver daqui. Gente, e o cabelo? (Risos) Cor de sorvete de creme. Péssima, tadinha. Péssima. Um maiô breguérrimo. É, minha filha, de maiô. Não. Não digo que é gorda, mas tem uma bela pança, viu. Bom, pra tá de maiô, né… Amiga, ele tá segurando na mão dela. (Irônica) Que bonitinhos… Os dois agora estão colocando máscaras pra mergulhar e ver peixinhos. Esses se merecem. Amiga, você se livrou de um lixo. O cara te trocou por essa mocréia aí? Nem sei por que trouxe ela para o mar. Capaz de a baleia se encontrar com a família (risos). Ou ela seria uma piranha? Piranha é da água doce, né? Amiga, curte aí a fossa e desencana. Esse aí já era. Vou desligar.

Mulher desliga, volta para a sua canga e fica rindo sozinha. Acena brevemente para o casal que acabou de descrever para a amiga ao celular.

FIM

Bem, amigos do MPNM. Nada como começar o ano ouvindo uma delação.

A história acima é tão verdadeira quanto um texto jornalístico pode ser real. Mas tem lá seu ensinamento.

As Informantes, esse grupo ousado e um tanto nefasto, está mais à vontade do que nunca no mundo da tecnologia, do voyeurismo e da bisbilhotice.

Não há um único canto em que podemos ficar em paz. Sempre existirá um celular, um computador, uma câmera a nos flagrar. E uma informante pra nos dedurar.

ilha grande

Sim, porque sem uma informante de nada vale o celular. A culpa não é da tecnologia.

Observem de novo a cena inicial deste artigo. Pobre rapaz, não? Quando ele poderia imaginar ser alvo de fofoca só porque quis mergulhar numa ilhota selvagem com sua nova companheira?

Antigamente As Informantes agiam graças a uma complexa rede de amigas e fofocagem. Se o mesmo enredo acontecesse há uns 15 anos, certamente a denunciante não teria um celular (ou a ilha não teria uma torre de transmissão). Então, a notícia chegaria pra amiga com vários dias de atraso, o que deixaria a coisa toda menos urgente e fantástica.

Hoje, não. Qualquer coisinha, qualquer fato picareta merece ser bradado, gritado como se fosse a última peça de Shakespeare, a última bolacha do pacote.

As Informantes estão felizes da vida. De celular na mão, são as paparazzi da gente comum, dos ordinários.

Elas passam o dia circulando por aí, loucas pra transformar qualquer situação em plantão extraordinário.

Por que a informante faz isso? Qual é o prazer em ligar imediatamente pra uma amiga (na fossa, aparentemente) e contar que está vendo o ex na praia com outra?

É, pensando assim tem um prazer aí sim. Mas, por favor, precisa ser na hora, na lata, acabando com a dignidade da natureza?

Nunca na história deste país tivemos tantas informantes. E todas bem equipadas, doidinhas pra te dedurar e acabar com o sossego deste 2009.

Hoje, todo mundo tem um paparazzo particular.

Sim, porque tem muito homem por aí que também adora um celular.

Cuidado, rapaziada. Ou você pensava que só o Ronaldo, as Ronaldinhas, Britney e Amy Winehouse eram perseguidos?



por Careca

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1 Comentário »

Vinícius
2009-01-05 18:15:46

Isso mesmo, tem que ter cuidado com o que faz e por onde anda. Você pode até nao conhecer mas o informante com certeza te conhece.

COMENTÁRIO:
Pô, parece chamada de filme de terror. Mas é por aí mesmo. Porém, não vamos abandonar nossos desejos por causa desse negócio. Quem tá na chuva… Abraços,
Careca

 

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