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Rock'n roll

04/08/2009 - 13h59

O equilibrista e o amor

Certamente é uma das metáforas mais óbvias – e mais emocionantes – que pode existir. Viver a dois é como atravessar numa corda bamba as finadas torres do World Trade Center. Eu sei que elas caíram, mas isso não derruba a tese.

Aliás, maldito seja o danado que teve a infeliz idéia de desmontar o sonho de Phillippe Petit.

Não queria entrar assim no assunto, meio de supetão, quase sem avisar, só que agora lembrei da turma do Al-Qaeda e fiquei um tanto chateado. Pra que fazer aquilo?

Vamos voltar um pouco no tempo. Bem pouquinho mesmo. Há uns meses vi no cinema o deslumbrante “O Equilibrista”, de James Marsh, vencedor do Oscar deste ano de melhor documentário.

Lembro que era um dia estranhamente frio. Poucas pessoas na sala (como eu gosto, aliás, pois hoje ninguém sabe ficar minimamente em silêncio). E eu saí do Reserva Cultural meio bêbado, sapateando pela av. Paulista, lotando minha cabeça de sonhos, imaginando que eu também poderia ser alguém, que um dia eu falaria orgulhoso: “Yes, eu dancei no topo do mundo. Fui atrás de meus sonhos. E consegui”. Tudo na bonita linha da metáfora, claro.

Cheguei em casa e fiquei horas enchendo a cara de vinho e ouvindo Michael Nyman. Tá, vocês não tem nada com isso.

Mudando de faixa. Outro dia comprei o DVD de “O Equilibrista” e senti novamente todas aquelas coisas. Vocês já viram? É excepcional. Louco, sem sentido, delicioso, engraçado, emocionante… É vivo. Parece com o nosso cotidiano (ou o de Brasília).

Enfim, o filme conta a história de Phillippe Petit, um equilibrista que teve uma epifania num consultório de dentista. Isso porque nem estava na cadeira do doutor. Na ante-sala, esperando a consulta, ele leu uma notícia que relatava a história da construção do WTC em Nova York.

Tomado de amor por aquela maravilha que prometia ser a maior do mundo, ele decretou: “Isso está sendo construído pra mim. Um dia, vou atravessar essas torres me equilibrando num cabo”.

Dito e feito, em 1974 ele montou uma operação clandestina, se juntou a outros doidos, esticou os cabos numa madrugada e na manhã de 7 de agosto andou por longos 45 minutos se equilibrando num fio entre a Torre Sul e Torre Norte dos maiores edifícios do mundo na época. Sonho realizado.

E amar não é isso? Viver ao lado de alguém não é atravessar as Torres Gêmeas sem rede de proteção? Ou pode existir algo mais sem sentido, porém tão belo quanto amar?

Há uma cena do documentário absurdamente deslumbrante. Durante alguns segundos, a mulher de Petit se agarra nas costas do sujeito e atravessa… Querem saber? Mais não conto. Vocês precisam sentir a vibração do som, a cadência das imagens, o amor nas palavras pra se emocionarem como eu.

manwire

Fato: revendo a obra em DVD observei mais do que nunca o quanto o filme fala sobre o sonho e o amor.

Estar junto, compartilhar os momentos, acreditar no outro, é sem dúvida flutuar entre as Torres Gêmeas. E não ter nenhum medo de cair. É confiar cegamente nos amigos que estão esperando em qualquer um dos lados, é olhar pra baixo e sorrir, é deitar no meio do percurso, é brigar e nunca arremessar o outro pra baixo, é sapatear de alegria na iminência do fim, é ir e voltar, é saber que o momento é único, é se arriscar, é sentir o tesão do perigo, é amar.

E, acima de tudo, se vocês chegarem do outro lado e tiverem que se separar, é saber que a aventura foi sublime, única, imponderável, impensável e maravilhosa. E aplaudida.

Lembram-se de Waly Salomão? Viver é sonho. Amar também.

Pra que ter medo de enfrentar essa aventura? Tem coisa mais bonita do que olhar alguém se equilibrando distante 450 metros do chão? Pois tem ocasião mais sublime do que amar?

Estar com o outro é isso. Sapatear um fio minúsculo entre os maiores edifícios do mundo. Contrariar a lógica, sacanear a razão, peitar o mundo, fazer o espetáculo da vida valer a pena.

E quando perguntarem: “Mas por que você está fazendo isso?”. Responda como Petit, diga que não há razão, fale que amar já é suficientemente bonito.

Se todos nós atravessássemos WTCs diariamente, sem frescura, sem medo, sem sentido, essa coisa que chamamos vida seria muito mais interessante. Encontre suas Torres, ame o seu equilibrista e siga nessa jornada.

O que importa não é chegar do outro lado. Mas ter a coragem de tirar o pé do parapeito e iniciar a travessia.

Vá.



por Careca

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“Se você falar a verdade, não precisará se lembrar de nada.” ( Mark Twain) »

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9 Comentários »

Leninha
2009-08-04 21:17:51

Inspirador!
Ai, ai…(suspiros)!
Entendi a mensagem Careca, e adorei!
Estava mesmo precisando ler algo assim…Porque as vezes, nos esquecemos destas torres e nos esquecemos do amor…
Um grande beijo!

COMENTÁRIO:
A turma tenta derrubar as danadas, mas elas sempre voltam. Beijos,
Careca

 
Vinícius
2009-08-04 21:19:38

Impressionante meu caro careca. O amor mexe mesmo com as pessoas. Você conseguiu expressar em palavras tudo que os olhos tentam nos dizer e a boca não consegue proferir. Amar é mesmo como andar em uma corda bamba. Sutilmentes jogados à sorte de um equilíbrio grande e com a torcida de não receber um forte vento que o derrube. Apenas acreditando no além daquela passagem , mas vivendo cada passo como se fosse cair no próximo. É como dizia nosso grande Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver;”
Porém, nem sempre o amor é intenso, mas pode ser vivido de uma forma quente. Tais palavras são ditas por um real macho que não amou sempre a mesma mulher, mas que amou todas que passaram pela sua vida de forma singular. Meu chará Vinícius de Moraes que disse:”Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”

Abraços, Vinícius

COMENTÁRIO:
É isso aí, sempre honrando o nome. Abraços,
Careca

 
Ana Carolina
2009-08-05 11:06:33

Careca de Deus!
Chorei!
Nunca vi verdades sendo faladas de forma tão poética. Me faz acreditar que ainda há alguns moços por aí…prontos a se arriscar pra amar, a atravessar torres sem medo da altura ou do vento forte lá de cima.
O difícil é saber onde.
Sigo procurando quem atravesse comigo…ou me espere do outro lado.

Beijos

COMENTÁRIO:
O importante é seguir. Beijos,
Careca

 
milah
2009-08-05 20:54:40

ki linduuuuuu careca!!!
*-*

todas as palavras q direi serão inúteis, vc jah disse tudo!!
xD

 
Aída
2009-08-06 09:25:08

Acordei pensando hj se namoro ou se compro um camelo. Acabei de decidir.

Parabéns pelo belo texto.

Bjk!

COMENTÁRIO:
Boa. E camelo tá caro pra caramba. Beijos,
Careca

 
Irene
2009-08-07 14:14:52

É… Dias sem vir por aqui e hoje resolvi aparecer…
Tudo o que eu precisava ler!
Valeu muito! :)
Beijinho,
Irene

COMENTÁRIO:
Quando precisar, é só clicar. Beijos,
Careca

 
Bia
2009-08-08 13:32:58

tomei coragem…iniciei a travessia, caí…
me arrebentei toda…chorei, sangrei, as marcas ficaram…algumas feridas ainda nem fecharam, mas como vc sugeriu lá em cima…” a aventura foi sublime, única, imponderável, impensável e maravilhosa!
Não houve aplausos…estava só…continuo só, mas a procura de um outro fio para arriscar um novo tombo!
Obrigada Careca…hj seu texto foi um bálsamo…sou normal…imperfeita e feliz!!!
amo-te!!

 
Marco Aurelio
2009-08-12 16:35:16

vc abordou o amor de uma forma diferente…
gostei… mas não concordo

achei muito ideal…
a questão principal pra mim não é somente ir, mas sim ter a sabedoria de quando ir, com quem ir, entre outros. Ou qualquer corda bamba que aparecer vc vai querer subir em cima…
acho que no amor vc tem ser mais egoista, pelo menos no começo, porque ninguem consegue se esconder numa relação séria, uma hora vc acaba descobrindo quem e a realmente…
acho que eu começaria a andar na corda bamba de para-quedas, depois de ganhar confiança na pessoa, eu o largaria e caminharia nela, sem ressentimentos… Tenho certeza que essa pessoa valeria a pena, mesmo vc se destroçando no chao depois de largar o para-quedas…

abraços

COMENTÁRIO:
Verdade, Marco. Atravessar uma corda no chão de casa é fácil. Quero ver é encarar as Torres Gêmeas. Abraços,
Careca

 
Mika
2009-08-24 18:57:27

Amar é isso mesmo..
e quem não faz isso por amor, ou por paixão
ou por desejo…
nunca sentiu de verdade!

 

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