Macho pero no Mucho
 
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Rock'n roll

17/09/2009 - 12h35

O fim da história… de amor

Não sei quem inventou que não vale mais a pena lutar por um amor.

Sinto que a moda hoje é desistir da conquista, da história, da aventura.

Como se o amor fosse o comunismo, os Beatles, o Flower Power… O sonho acabou?

Ainda bem que alguns filmes, livros, quadros, peças, músicas, artistas continuam exibindo por aí grandes narrativas amorosas, doídas, breves, eternas. E que mostram que amar ainda compensa. E muito.

Não sei quem falou a seguinte bobagem dias atrás: “O negócio hoje é a paixão. Ela sim está sintonizada com esses tempos rápidos, intensos, que se resolvem em 140 caracteres. Amar não tá com nada. Puta coisa careta, cheia de lenga-lenga, bizarrices, vai-e-volta. Deixemos o amor para as irmãs Bronte, para as ladies de séculos antigos e mofados, para os tuberculosos, para a Moreninha, Dom Casmurro. O amor morreu”.

Só eu tenho a falta de sorte de sempre estar numa mesa de boteco com alguém que resolve fazer discursos? Que coisa. Um porre danado.

Não existe nada mais chato do que cretinices sendo ditas como receitas de bolo, slogans de revolução ou minutos de sabedoria.

Pois seja lá quem você for, seu raciocínio está completamente equivocado, errado, mais sem crédito que o fio do bigode de Sarney.

Onde existir o humano, irá sobreviver o amor, a dedicação, o carinho, os beijinhos sem ter fim, os abraços ternos, o louco devaneio da união.

Amar sim é uma aventura, meu povo.

Já falamos aqui que tô nem aí para o resultado dessa coisa chamada relacionamento. O que me importa mesmo é a eternidade que ele adquire enquanto dura.

Dois filmes estão em cartaz pra mostrar que toda a dor do amor vale a pena: “Amantes”, de James Gray, e “Up – Altas Aventuras”, da Pixar.

Nos dois, a plena existência por aqui só é recompensadora porque existe o amor.

up

Os resultados são bem diferentes, claro.

No primeiro, Joaquim Phoenix não dá bola pra torcida e contra tudo e todos luta desesperadamente para amar pra sempre a vizinha Gwyneth Paltrow.

Já no clássico “Up” (o melhor filme do ano), Carl trava uma batalha insana para superar a perda de seu único e imenso amor.

Imaginem se esses personagens acreditassem na baboseira da amiguinha lá de cima? Aquela que sente medo de amar, que resiste ao envolvimento com receio do fim, da decepção e dos inevitáveis tempos mortos de uma relação?

Bem coisa da covardia do nosso espírito do tempo.

Todos estão cansados, apavorados, pobres individualistas cuidando de si, do próprio corpo sem alma.

Tenho escutado muito nas avenidas umas bruxas, umas Cassandras, gritando o fim do amor.

Assim como Fukuyama decretou o fim da história (e depois teve que pedir desculpas), a moçada acredita que o sentimento amoroso também chegou ao fundo do poço.

Parece que ninguém mais está disposto a fazer sacrifícios, a suar frio, a sofrer dor de barriga, a desmaiar pelo outro.

Que babaquice é essa de que só a paixão vale a pena?

Sim, amar exige um esforço soberbo, vários sacrifícios, algumas pauladas, dezenas de topadas com a incompreensão, mas também oferece umas compensações bem bacaninhas, viu.

Então percebo a moçada correndo de um pra outro, fugindo de qualquer sinal de amor.

Acendeu a luz amarela e o sujeito já dá um stop e pensa: “Opa, daqui a pouco estarei amando e pronto. Baita sufoco. Vou nessa, gatinha. A gente se esbarra na noite gelada dos corações de zumbi, que não batem”.

Por quê?

Onde se escondem as grandes narrativas de amor neste princípio de século?

Minha esperança se renova quando vejo “Up – Altas Aventuras”. E desculpe insistir novamente nessa obra-prima.

Mas como não respirar aliviado quando crianças, adultos, jovens, bichos, políticos choram compulsivamente logo nos primeiros 15 minutos de filme?

Isso porque ali, em meia dúzia de cenas perfeitas, observamos o amor infinito entre Carl e sua mulher. Um amor feito de cotidiano, de alegrias, paciência, frustrações, carinhos e, acima de tudo, muita dedicação.

O amor está se tornando um luxo que poucos estão dispostos a pagar.



por Careca

Outros artigos:
« “Atrás da poesia do amor vem a prosa do casamento.” (Camilo Castelo Branco)
Bobeou, o Zé Mayer pegou »

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20 Comentários »

jéssica
2009-09-17 13:04:45

Nossa Careca… essa tocou me coração que estava quase desistindo de um amor, depois de ler esse artigo to até envergonhada, adorei.
Acho que falta um pouco dos velhos romanticos no nosso cotidiano, falta aquela do Victor Hugo “Desejo”, para fazer a gente acreditar que tudo o que se faz é movido pelo amor…
Adorei mesmo essa reflexão…uma das melhores

Bejaum

COMENTÁRIO:
Valeu, Jéssica. E boa sorte. Beijos,
Careca

 
Nadja G.
2009-09-17 18:08:02

Falou e disse!!!
O povo anda com um medo de amar…
Eu falo, o máximo que pode acontecer é terminar, os envolvidos ficarem tristes um tempo e depois continuarem a vida! Bom, isso em geral, ás vezes as coisas realmente se complicam… mas tudo passa!

COMENTÁRIO:
Tudo. Beijos,
Careca

 
Mika
2009-09-17 18:56:55

Ah, amar é tão lindo
e tem gente que foge disso? `
É fugir de ser gente de verdade!

Só se faz coisas grandiosas com muito amor!
Pronto, tô amorosa! Rs

 
Aída
2009-09-18 08:31:33

Orra! Fiquei sem fôlego… aliás, sinto falta de ficar sem fôlego por amor. Ótimo começar o dia com uma leitura assim. Penso que vou me acabar de chorar vendo filmes românticos neste fim de semana. rs.

COMENTÁRIO:
Boa pedida. Beijos e bom final de semana.
Careca

 
Nayara Rossi
2009-09-18 14:12:21

Caro amigo careca, puxa vida!!!

Acho que esse foi o único post que eu “concordei” com você até agora: BRILHANTE!

A falta de amor deixa o ser humano incapaz de produzir coisas bonitas aos olhos, deixa a existência sem graça, sem emoção.
Eu gosto do amor daqueles bem bregas, de fazer coraçãozinho no caderno e fica suspirando enquanto aquele professor chato fica falando.

Ai, ai….

Beijinhos ;-)

COMENTÁRIO:
Algum eu tenho que acertar, né. Beijos,
Careca

 
Bruna
2009-09-18 15:27:14

Sabe qual o problema?
As pessoas definiram o amor. Estipularam um valor para algo que não se tem como medir…
O amor hoje vale um anel de diamantes, um carro novo, um apartamento de luxo e uma noite no Copacabana Palace.
O sentimento sumiu e virou forma, virou algo concreto e mensurável… Agora o antigo diálogo:
- eu te amo!
- eu te amo mais!
- nãoo eu te amo muito mais!
se transforma…
- eu te amo!
- eu te amo mais, paguei a conta do restaurante sexta feira o cinema sábado e te comprei uma orchidea!
- o que? eu te amo muito mais, lembra aquela festa que a gente foi? Foi uma nota! Ainda mais com aquelas garrafas de champagne que você bebeu e que eu paguei.

Logo em seguida começa a briga…

Tenho sorte de viver um grande amor, sorte mesmo, por que tenho 19 anos e estamos juntos a quase 3…Assim como eu grandes amigos e amigas formam mais 3 casais que claramente se amam à forma antiga…

Fique tranquilo Careca,
o amor não morreu!

COMENTÁRIO:
Bons exemplos. E com essa manifestação toda, estou bem mais tranquilo. Rs. Beijos e sorte,
Careca

 
Mari
2009-09-18 15:30:50

Careca,
Se eu pudesse casava com você! É de um cidadão assim, que nós pequenas estamos precisando para mergulharmos de cabeça num relacionamento!

“As coisas que amamos
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absoluta
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar”

Carlos Drummond de Andrade

Beijinhos,
Mari

p.s.: sobre o casamento é brincadeirinha!

COMENTÁRIO:
Rara. De qualquer forma, valeu pelo poema. Beijos,
Careca

Mari
2009-09-23 11:59:45

Jura, que é raridade? Ninguém se ofereceu?
rsrsrsrs
Beijos

 
 
Vinícius
2009-09-18 23:12:25

É caro Careca, o amor não é para qualquer um. Não são todos que aguentam isso. Infelizmente muitos pulam foram quando começa a fase das adaptações. Resistir a isso nunca foi tarefa fácil, mas o que é bom se não tem um pouco de dificuldade?

Pergunta tirada por conhecimento de causa,

Ainda espero a glória do amor. Abraços, Vinícius.

COMENTÁRIO:
Como diz aquele lá: quem espera, sempre alcança. Certo? Abraços,
Careca

 
Giuliano Nascimento
2009-09-19 22:51:54

Realmente o amor é para poucos, e só os fortes se arriscam a se jogarem no abismo do amor. Sem pensar, apenas acreditando na mão do outro e na queda rumo ao desconhecido dentro de cada um.

Bruna
2009-09-20 23:13:12

Se jogue!

 
 
Lúcio Sátiro
2009-09-21 16:19:52

Mas, de que amor vocês estão falando ? Do sentimento de posse que foi inventado nos tempos do amor romantico do trovadorismo, onde um homem botava uma mulher num pedestal, e morria por ela, às vezes tuberculoso, sem nunca a ter desposado, um amor platônico imbecil e irreal , como se a tal mulher (ou musa) fosse uma boneca de porcelana, inalcansável, perfeita, ,mais pura que os homens ? Ora, o amor é um sentimento bonito, mas pouco prático ao menos para nós homens. POR QUE A BALANÇA NUNCA É IGUAL.Sempre heverá um que amará mais que o outro e sofrerá mais que o outro.Vivemos num mundo real, e não no ideal, o dos contos de fadas.Aliás, o tal mundo dos contos de fadas nunca existiu, ele foi inventado na Idade Antiga/Média.

COMENTÁRIO:
Bom, certamente não estou falando do amor que a gente consegue colocar numa balança cheia de precisão. Abraços,
Careca

Nayara Rossi
2009-09-22 11:48:39

Caro amigo Lúcio,

Quanto ódio nesse seu coraçãozinho… tsc, tsc, tsc.

O negócio é ser feliz, com a donzela, com a Amélia, com a Mulher gato, com as patricinhas… afinal, essencialmente são todas mulheres, com suas mulherices, patricices, maluquices e afins. rsrsrs

Vai ser feliz mininu!!!!
Beijokas.

 
Irene
2009-09-23 00:54:23

E quem falou em mundo ideal ou amor ideal???
Esse não existe mesmo e não tem a menor graça!
Pra sermos pessoas cada vez melhores e mais felizes temos que viver (e viver bem!) com o mundo real e tudo que há nele, inclusive os riscos!
Arrisque-se!!

 
 
Irene
2009-09-23 00:51:00

PQOP!!!!
Tu é f…!!!
(Com o perdão das palavras!) rs…

ADOREI!
Vou correr pra assistir Up! :)

Beijinho,

Irene

COMENTÁRIO:
Vá voando. Beijo,
Careca

 
Lisa
2009-09-24 09:37:38

Careca, seu texto realmente está divino….
Vc está coberto de razão….. depois de ouvir algumas pessoas que dizem que amar não vale a pena, que só faz sofrer, e blá, blá, blá… cheguei a pensar que eu tava pirando por amar uma pessoa (no caso, meu namorado)… mas agora, lendo seu texto, vejo que vc está completamente certo. realmente poucos estão dispostos a amar verdadeirmente, mas posso dizer (por experiência própria) que vale a pena… todo amor encontra obstáculos, mas qual seria a graça da vida se não fossem os obstáculos que se apresentam e que vencemos???? é maravilhoso olhar para trás e ver que somos vencedores e que sabemos amar. Portanto, se alguém tem fobia desse amor que é tão sublime, deveria se arriscar a viver isso… no fim das contas vc não se arrepende.

bjo.

 
Irene
2009-09-26 01:34:56

Assisti e adorei! (acabei de chegar do cinema e de um sanduichezinho do subway rsrs…)
Lembrei do que li aqui nos 15 primeiros minutos do filme! :)
Obrigada pela dica! :)

Beijocas,

Irene

COMENTÁRIO:
Pode contar com a gente. Beijos,
Careca

 
Pri
2009-09-29 15:34:11

Seu texto me fez lembrar aquele do Chico Sá, “Carta aberta aos covardes no amor etc”. Ele foi dedicado aos homens, mas acho que a mulherada tb pode começar a se incluir na “categoria” ‘frouxo’. Tudo em que se fala hj é na falta de homens, de mulheres, mas qdo chega a hora H, todo mundo arruma um jeito de se esconder. O fato é que todo mundo tem medo, mas parece que ninguém mais tem coragem de assumir riscos…só sobra espaço mesmo pras paixões (quase sempre sem graça) de uma noite em que ninguém se expõe e as pessoas fingem estar satisfeitas.
Ahh, essa modernidade.
Beijão

COMENTÁRIO:
O Xico está sempre entre nós. Beijos,
Careca

 
Ana Carolina
2009-10-02 23:02:40

Oi Careca

Pelo visto, nao é só o amor que está desatualizado.
Listo a ele o banho de chuva, sentar na areia e simplesmente ver o sol se pôr, lindas poesias sendo ditas calma e deliciiosamente (de preferência com uma taça de vinho), amigos reunidos para um churrasco, almoço de família, aniversário daquele primo que vc não vê a séculos (mas adora), andar de mãos dadas silenciosamente, pegar o carro e sair sem destino, ouvir música no escuro….
Interminável.
Sinto que poucos estão preparados para o “para sempre felizes”. Muitos querem a fase intensa do amor, mas não se preparam para os tempos amenos. O eterno enquanto dure ganha cada vez mais espaço entre nós.
Up (filme supracitado) é um belo exemplo de um amor que durou sem filhos, sem grandes emoções até a ilha na América do Sul…simplesmente os dois…acordando e sorrindo para mais um dia juntos.

Falando em poesia…cito Adélia

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado

Vamos salvar o amor, pessoal…ele vale à pena.

Beijos…para o Careca e outros que asteiam essa bandeira

COMENTÁRIO:
Belos prazeres (os que você invocou e os da Adélia). Obrigado. Beijos,
Careca

 
Lohana
2009-10-09 18:18:37

É difícil amar e ser amado.Deve ser por isso que tantos fogem, fecham os olhos e o coração. Chorei compulsivamente durante Up e ouvi as pessoas ao meu redor chorarem também, mas tentando ao máximo não demostrarem seu sentimento.Acho eu que a maioria das pessoas não demostram a vontade de amar porque têm medo de demostrarem a fragilidade para qual o amor nos transporta.
Gostei muito do texto,Careca.

 

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