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Rock'n roll

28/09/2009 - 0h49

As primeiras imagens do resto de nossas vidas

Outro dia descobri que passo 95,76% do tempo pensando em idéias (na velha ortografia mesmo) que nunca realizarei. Mentira. Eu já tinha sacado isso faz tempo. Só que numa noite especialmente descrente, um tanto alto, chutando com força pensamentos, percebi que pelo menos imaginar esses sonhos me fazia um sujeito um pouco menos melancólico.

Bom, lamento informar, mas esqueci completamente o que eu ia escrever.

Sério mesmo. Também estou desolado. As palavras estavam aqui, todas reunidas, esperando o parto natural. Porém as malditas fugiram.

Espere um pouco. Creio que deve ser sobre o livro “Onde a Gente Vai, Papai?”, do francês Jean-Louis Fournier. Putz, que coisa emocionante é atravessar essas páginas. É uma narrativa bem cruel, de um pai fazendo o seu acerto de contas com os dois filhos deficientes.

Sarcástico, irônico, cruel até. Mas de arrepiar pela sinceridade e emoção. Passei o ridículo de chorar enquanto lia o livro e comia rúcula num restaurante por quilo (jamais junte o amargor da rúcula com o de um livro).

Tá. Estou apenas enrolando vocês. Simplesmente não consigo me recordar… Ei, lembrei.

O assunto estava bem embaixo do nariz. Na verdade, atrás do livro do Fournier. Trata-se do volume “Textos Autobiográficos”, do norte-americano (nascido na Alemanha) Charles Bukowski.

Não preciso apresentar o cara pra vocês. Leiam o sujeito e pronto.

O texto inaugural fala justamente sobre a primeira coisa que o autor se lembra na vida.

É o que ele viu quando estava embaixo de uma mesa. Ele conseguia visualizar pernas e parte da toalha. Mas estava contente, pois se sentia invisível, escondido, longe da encrenca. Tinha dois anos.

Então tentei pensar quais foram as minhas primeiras impressões do mundo. E será que isso nos ajuda a descobrir quem somos?

Qual é a sua primeira impressão do universo?

Eu acho que eu via meus pais sorrindo, fraternos, pra mim.

eclusa

E mais, sorrindo fraternos um para o outro.

Aquilo me deu um tremendo conforto.

Parece que pensar em duas pessoas (as mais importantes) felizes, um homem e uma mulher, sorrindo, poderiam me indicar a felicidade.

Tudo inconsciente, claro. Freud explica. Ou Jung.

Fato é que eles estavam lá, sem essa de expulsão de paraíso, maçã e cobra.

Eu era fruto legalizado.

Aí, pensei num livro só de entrevistas com pessoas contando sobre suas primeiras imagens do mundo. Não seria magnífico? Não nos ajudaria a entender cada um? Até mesmo os metrossexuais?

E, como passo os tais 95,76% perdendo tempo com sonhos estúpidos, já imaginei a parte dois do projeto.

Seria um livro com as pessoas contando as primeiras imagens que se lembram de seus grandes amores (ou atuais amores).

Eu mesmo penso até hoje o que significa a primeira impressão da minha fantástica mulher.

Confesso que me apaixonei por um joelho.

Sério.

Já tinha encontrado a pequena numa outra oportunidade e nada.

Mas um dia, quando olhei aquele joelho…

Acho que significa que temos muito o que caminhar, andar ou levar porrada por aí.

Cada um tem uma imagem, uma lembrança.

Do meu primeiro amor, a imagem que tenho é eu ganhando um beijinho enquanto atravessávamos um canal no Rio Tietê, numa eclusa em Barra Bonita.

De outra, lembro do filme do Austin Powers. Engraçado, mas nem sei do rosto da garota, mas me recordo da gente feliz vendo o Mike Myers.

E daquela que nunca me beijou, mas falou que me amava? Lembro da sua imagem de costas, indo.

Por que conto tudo isso? Sei lá.

Disse que estou confuso.

Só que deve significar algo, não?

Quais as primeiras imagens de seus amores? E de sua vida?

Acho que podem nos contar um pouco sobre os homens, mulheres, gays, metrossexuais, etc. que somos hoje.



por Careca

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Requiem para o Amor »

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4 Comentários »

Giuliano Nascimento
2009-09-28 21:43:41

Bom, muito bom.
Devaneio bom de dividir este seu hein?
Estou a cada dia mais viciado nos textos seus e de seu companheiro de blog, vocês são phoda.

Maluco isso, das primeiras imagens - já tenho no que pensar na próxima madrugada insône.

E só para ilustrar, a imagem que eu tenho do meu atual amor (não correspondido) é ele lambendo os dedos ao comer batatas fritas.

Ai ai ai, isso significa será o quê?

COMENTÁRIO:
Olha, neste momento me ocorre Machado: “ao vencedor, as batatas”. Abraços,
Careca

Giuliano Nascimento
2009-09-29 19:07:32

Citar Machado de Assis é crueldade, assim é demais para euzinho Careca.

Não por acaso sou fã confesso.

E só para constar, vou em busca das batatas.

Abraços.

 
 
Ana Carolina
2009-09-29 10:06:46

Nossa…que texto lindo Careca.
Nada surpreendente, claro…pq vc é mestre em escrever coisas do gênero.
A primeira imagem que lembro são de dois amigos do meu irmão acampando em nossa casa de praia. Um eu chamava de Robin (pq tinha cabelos pretos) e o outro eu chamava de Ruck (pq era loiro e muito alto). Me lembro deste em cima da caixa d’água (no jardim) e o sol batendo muito forte nos seus cabelos. Quase não lembro do rosto…apenas o sol e aquele homem enorme.
Do meu primeiro amor…
Luzes (do nada) apagando na rua…na esquina ele me pára e me tasca um beijo…os livros caem da minha mão…uma enorme vergonha/não saber o que fazer, toma conta de mim. rs. Tínhamos 14 anos! Daquele beijo nasceu um namoro de 7 anos.
Gostoso demais recordar tudo isso em uma manhã de terça-feira.
Beijão

COMENTÁRIO:
Como diz aquela outra: recordar é viver. Beijos,
Careca

 
Victória Rocha
2009-10-03 11:21:47

Outro texto magnífico,mas como diz a Ana,nada surpreendente já que você normalmente os faz magnificamente…Interessante demais o texto,creio que as primeiras impressões/imagens devem mesmo dizer algo sobre nós.Não vou colocar as minhas aqui agora…não consegui pô-las(as poucas que tenho devido a pouca idade) em ordem,mas refletirei sobre isso…Bjinhos.

COMENTÁRIO:
Obrigado. Beijos,
Careca

 

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