
Eu gosto quando as coisas acontecem e você fala: “uau, parece filme”. Tudo no ritmo certo, com diálogos bacanas, música reforçando o clima e dramaturgia no ponto. Outro dia, uma dessas sequências apareceu na minha frente. Foi mais ou menos assim:
INT. – FREVINHO – DIA
Careca está sentando no Frevo, lanchonete velhusca da Augusta. É seu dia de folga. Ainda se recuperando de uma ressaca, pede Coca-Cola e um prato clássico do lugar: o famigerado Hamburgão. Trata-se de um hambúrguer de 200 gramas coberto por queijo e presunto. Acompanha fritas, banana milanesa, farofa de ovo, molho especial de maionese, tomate e alface.
Ele recebe o prato e dá um sorriso feliz para o garçom, seu velho conhecido. Antes de dar a primeira mordida, abre o livro “Bastardos Inglórios”, roteiro do Quentin Tarantino.
Aquela expectativa o deixa nas alturas. Em poucos segundos, ele poderá ler calmamente enquanto enche o bucho com absolutas porcarias.
Mas seu momento é interrompido por um chamado. Uma voz feminina, um pouco grossa, se dirige a ele. É Paula, amiga de longa data. Porém, não se viam há um ano.
PAULA – Careca, meu filho. Eu sabia.
Careca leva um susto, vê seu confortável lanche escorrer pelas mãos. Olha desolado para o prato.
CARECA – Paula? Não acredito. Senta aí mulher.
Paula nem titubeia. Senta e já começa a falar. Na mão, ela carrega o DVD do filme “Grey Gardens”.
PAULA – Meu, que loucura. Puta coincidência. Te vi lá de fora e não resisti.
CARECA – Bom te ver também. E aí? Que cê ta fazendo?
PAULA – (Mostra o DVD) Documentários. Cara, tô numa agora de docs. Cê já viu esse dos irmãos Maysles? Foda.
CARECA – Vi. O que são essas duas mulheres?
PAULA – Oh, mas não quero te atrapalhar. Cê tá com o mesmo número de telefone? Aí eu te ligo e marcamos alguma coisa.
CARECA – Não quer ficar mesmo?
PAULA – Beleza, vai. Um chope então. Quer dizer, dois, porque não vou admitir Coca nessa mesa.
CARECA – Tô ressacado, mas vamos nessa. A ocasião merece.

Paula pede os chopes.
PAULA – E aí, meu. Quanto tempo, Careca. (Reparando no livro) Ah não! Tarantino, véio. Já viu?
CARECA – Inda não. Só lendo o roteiro. Fodaço.
PAULA – É demais né? Tô meio por fora desse aí.
CARECA – “Bastardos Inglórios”, com o Brad Pitt. Baita história.
PAULA – Sobre o quê?
CARECA – Basicamente… vingança. Um “Kill Bill”. Só que imagine a Uma Thurman judia e a turma do Bill como se fossem nazistas. Uns doidos caçando alemães no final da Segunda Guerra. O tenente Aldo, interpretado pelo Brad Pitt, é chamado de “Apache” porque tira o escalpo dos nazistas mortos. Vai vendo…
PAULA – Sobre vingança é? Sobre a melhor coisa do mundo então.
Os chopes chegam. Eles brindam.
CARECA – E o que você sabe sobre vingança?
PAULA – Ah, Careca… Eu acho que o Tarantino deve manjar disso. Mas quer ouvir uma história de verdade sobre vingança?
CARECA - Tô aqui pra isso.
PAULA – Então escuta isso, Careca. Lembra do Caio, meu marido?
CARECA – Claro. Como ele tá?
PAULA – Mais ferrado que eleitor em dia de eleição. Não sabe o que fazer. Perdidaço, Careca. E sabe por quê? Por minha causa. Arrebentei com a vida do sujeito. Parece que levou uma bordoada com taco de beisebol bem no meio do cocuruto.
CARECA – Cacete. Mas o que foi? Ele parecia ser tão bacana.
PAULA – Era muito bacana, Careca. Era. Até eu descobrir que ele me traía gostosamente com uma conhecida nossa. Que, aliás, também era casada.
CARECA – Que chato, meu.
PAULA – Não, Careca. Foi maravilhoso. Porque eu pude experimentar a vingança, o prazer que dá você simplesmente criar suas próprias regras e partir pra cima. Isso sim é adrenalina. No rules, my frendo.

CARECA – Deu uma de Lorena Bobbit e cortou o pau do cara?
PAULA – Não, Careca. Você me conhece. Gosto de planos elaborados, de coisas cinematográficas. Se cortar o pinto fosse inédito, beleza. Mas não. Eu descobri tudo e fiquei quieta. Não falei nada pra ninguém. Me fiz de morta. E planejei minha vingança. Ah, que dias maravilhosos foram aqueles.
CARECA – Sei… O tenente Aldo fala um negócio no filme do Tarantino. A linha é assim: “Os membros do Partido Nacional Socialista conquistaram a Europa por meio de assassinato, tortura, intimidação e terror. E é exatamente isso que faremos com eles”. Ou seja, ele simplesmente pensava em devolver na mesma moeda. E isso é vingança.
PAULA – Disse tudo. Ainda mais aquele calhorda, sujo, porco, vagabundo do Caio. Anos me cobrando, me enchendo o saco, me enlouquecendo com a maldita fidelidade. Ele não deixava eu fazer nada com medo dos chifres. E eu obedecia. Enquanto isso, ele lá, conquistando a Europa.
CARECA – Saquei. Acho que você nem precisa ver o filme.
PAULA – Bom, mas eu tive minha vingança. Não vou me alongar, Careca, porque sei que seu almoço é sagrado. Então, antes do último gole do chope te digo: eu tirei o escalpo do Caio. Joguei o jogo. Sabe o que eu fiz? Descobri tudo sobre a garotinha que estava com ele e a conquistei. Sim, meu amigo, pode engasgar aí com a farofa. Foi difícil, mas me transformei numa devoradora de mulheres, numa sapa imperdível e irresistível. E levei ela comigo. Roubei a amante dele.
CARECA – Isso foi sujo.
PAULA – E não foi só isso. Fiz primeiro ela terminar com ele. E depois, pedi a mão dele em casamento. O garotão lá, todo frágil com o fim do motelzinho da tarde, aceitou e parece que intimamente resolveu ficar quietinho, só comigo. Mal sabia ele que deixei o babaca gastar os tubos com cerimônia e o caramba. E na véspera, desmarquei e contei toda a história pra ele. E fui embora com a menina. Moramos um ano em Nova Iorque.
CARECA – E você gostou dessa vingança?
PAULA – Sabe de uma coisa, Careca? Acho que essa deve ser a minha obra-prima. Acredito que não farei nada tão lindamente elaborado na minha vida. Sei não, mas esse sentimento é complicado. Não há regras.
CARECA – Sinceramente espero que eu não tenha feito nada de errado com você. E nem que você tenha um bastão embaixo da mesa apontado para o meu saco.
PAULA – Rara. Saiba que tem muito amante por aí, muita gente mesmo, que despreza o poder da vingança, que acha que essa catarse jamais irá lhe atingir, que todos são razoáveis e tal. Sei. O amor não é nada razoável. Nada razoável. A vingança é um sentimento que tem que ser levado em consideração. Entendeu? Perdoar, ok. Mas se você quiser se vingar… Por que não?
CARECA – Posso escrever isso no site?
PAULA – Nem ferrando. Quer dizer, até pode. Mas faz daquele seu jeito. Muda os nomes, acrescenta umas mentiras e boa. Você é bom nisso.
CARECA – Vou encarar como um elogio. Mais um chope?
PAULA – Ora, ora. E dessa vez vamos fazer um brinde decente. E comemorar a oportunidade que todos nós temos de nos vingar daqueles que insistem em machucar nossas vidas.
CARECA – No cinema essas coisas me parecem mais seguras.
PAULA – Cada um escolhe o melhor jeito de se vingar, certo?
Só uma coisa a dizer: PQP! Aliás, mais algumas: eu já li em uma matéria de revista umas outras vinganças femininas f*dásticas, tipo a mulher que fez o cara perder os dois empregos e a namorada. Tem hora que, realmente, dá vontade de não sermos razoáveis, mas, ainda continuo sendo.
Bjks!
COMENTÁRIO:
Vingar ou não vingar, eis a questão. Beijos,
Careca
Taí uma mulher de bigode a que o gordo se referia no artigo dele háháháháháháháháháhá. Brincadeirinha.
Abração.
COMENTÁRIO:
Pois é. Mexe com o tipo, mexe. Abs,
Careca
Ahhhhh CACETA Viu! Queria ter coragem e criatividade para elaborar uma assim.. meu ex bem que merecia algo do tipo…
Acredito na tal Lei do Retorno, desde que não seja por mim…
Mas fico pensando tbm, se vale a pena e até que ponto isso me faria bem! Acho que não sei fazer mal à ninguém, mesmo que as pessoas insistam em machucar a minha vida!
Um BEIJOOOO Careca!
COMENTÁRIO:
Pois é. Cada um é cada um, certo? Beijos,
Careca
Só queria saber uma coisa, a citada Paula por acaso assistiu “Lua de Fel” do diretor Roman Polanski?
Referências, as amo.
COMENTÁRIO:
Não duvido. Aliás, o diretor do filme supracitado, Polanski, até hoje está sendo caçado pela justiça norte-americano num caso claro de vingança tardia. Abs,
Careca
Careca…
Acredito que a vingança é uma forma da pessoa não morrer dentro de vc. Pra mim, isso não gera catarse, mas uma eterna “ruminância” da dor.
Pra mim não dá.
Prefiro escancarar o fato e deixar que a vida dê o troco. Ela com certeza é mais sábia que eu. rs
Beijão
Hahaha!Adorei essa vingança da “Paula”!Puta criatividade, coragem e planejamento elaborado. Quisera eu conseguir me vingar assim dos caras que me maltratam. Mas, como ela mesmo disse “cada um escolhe o melhor jeito de se vingar”.
Beijão Careca.
Colocou o Tarantino no bolso, heim careca???
2 coelhos com uma cajadada só, mas se a prática se disseminasse os homens iriam empobrecer e as mulheres se tornariam sapas (será?).
Abraços,
L
essa é das minhas!