Macho pero no Mucho
 
  Procurar no site:  
 

Rock'n roll

06/10/2009 - 9h41

Os prazeres da vingança

Eu gosto quando as coisas acontecem e você fala: “uau, parece filme”. Tudo no ritmo certo, com diálogos bacanas, música reforçando o clima e dramaturgia no ponto. Outro dia, uma dessas sequências apareceu na minha frente. Foi mais ou menos assim:

INT. – FREVINHO – DIA

Careca está sentando no Frevo, lanchonete velhusca da Augusta. É seu dia de folga. Ainda se recuperando de uma ressaca, pede Coca-Cola e um prato clássico do lugar: o famigerado Hamburgão. Trata-se de um hambúrguer de 200 gramas coberto por queijo e presunto. Acompanha fritas, banana milanesa, farofa de ovo, molho especial de maionese, tomate e alface.

Ele recebe o prato e dá um sorriso feliz para o garçom, seu velho conhecido. Antes de dar a primeira mordida, abre o livro “Bastardos Inglórios”, roteiro do Quentin Tarantino.

Aquela expectativa o deixa nas alturas. Em poucos segundos, ele poderá ler calmamente enquanto enche o bucho com absolutas porcarias.

Mas seu momento é interrompido por um chamado. Uma voz feminina, um pouco grossa, se dirige a ele. É Paula, amiga de longa data. Porém, não se viam há um ano.

PAULA – Careca, meu filho. Eu sabia.

Careca leva um susto, vê seu confortável lanche escorrer pelas mãos. Olha desolado para o prato.

CARECA – Paula? Não acredito. Senta aí mulher.

Paula nem titubeia. Senta e já começa a falar. Na mão, ela carrega o DVD do filme “Grey Gardens”.

PAULA – Meu, que loucura. Puta coincidência. Te vi lá de fora e não resisti.

CARECA – Bom te ver também. E aí? Que cê ta fazendo?

PAULA – (Mostra o DVD) Documentários. Cara, tô numa agora de docs. Cê já viu esse dos irmãos Maysles? Foda.

CARECA – Vi. O que são essas duas mulheres?

PAULA – Oh, mas não quero te atrapalhar. Cê tá com o mesmo número de telefone? Aí eu te ligo e marcamos alguma coisa.

CARECA – Não quer ficar mesmo?

PAULA – Beleza, vai. Um chope então. Quer dizer, dois, porque não vou admitir Coca nessa mesa.

CARECA – Tô ressacado, mas vamos nessa. A ocasião merece.

bastard 2

Paula pede os chopes.

PAULA – E aí, meu. Quanto tempo, Careca. (Reparando no livro) Ah não! Tarantino, véio. Já viu?

CARECA – Inda não. Só lendo o roteiro. Fodaço.

PAULA – É demais né? Tô meio por fora desse aí.

CARECA – “Bastardos Inglórios”, com o Brad Pitt. Baita história.

PAULA – Sobre o quê?

CARECA – Basicamente… vingança. Um “Kill Bill”. Só que imagine a Uma Thurman judia e a turma do Bill como se fossem nazistas. Uns doidos caçando alemães no final da Segunda Guerra. O tenente Aldo, interpretado pelo Brad Pitt, é chamado de “Apache” porque tira o escalpo dos nazistas mortos. Vai vendo…

PAULA – Sobre vingança é? Sobre a melhor coisa do mundo então.

Os chopes chegam. Eles brindam.

CARECA – E o que você sabe sobre vingança?

PAULA – Ah, Careca… Eu acho que o Tarantino deve manjar disso. Mas quer ouvir uma história de verdade sobre vingança?

CARECA - Tô aqui pra isso.

PAULA – Então escuta isso, Careca. Lembra do Caio, meu marido?

CARECA – Claro. Como ele tá?

PAULA – Mais ferrado que eleitor em dia de eleição. Não sabe o que fazer. Perdidaço, Careca. E sabe por quê? Por minha causa. Arrebentei com a vida do sujeito. Parece que levou uma bordoada com taco de beisebol bem no meio do cocuruto.

CARECA – Cacete. Mas o que foi? Ele parecia ser tão bacana.

PAULA – Era muito bacana, Careca. Era. Até eu descobrir que ele me traía gostosamente com uma conhecida nossa. Que, aliás, também era casada.

CARECA – Que chato, meu.

PAULA – Não, Careca. Foi maravilhoso. Porque eu pude experimentar a vingança, o prazer que dá você simplesmente criar suas próprias regras e partir pra cima. Isso sim é adrenalina. No rules, my frendo.

bastard 1

CARECA – Deu uma de Lorena Bobbit e cortou o pau do cara?

PAULA – Não, Careca. Você me conhece. Gosto de planos elaborados, de coisas cinematográficas. Se cortar o pinto fosse inédito, beleza. Mas não. Eu descobri tudo e fiquei quieta. Não falei nada pra ninguém. Me fiz de morta. E planejei minha vingança. Ah, que dias maravilhosos foram aqueles.

CARECA – Sei… O tenente Aldo fala um negócio no filme do Tarantino. A linha é assim: “Os membros do Partido Nacional Socialista conquistaram a Europa por meio de assassinato, tortura, intimidação e terror. E é exatamente isso que faremos com eles”. Ou seja, ele simplesmente pensava em devolver na mesma moeda. E isso é vingança.

PAULA – Disse tudo. Ainda mais aquele calhorda, sujo, porco, vagabundo do Caio. Anos me cobrando, me enchendo o saco, me enlouquecendo com a maldita fidelidade. Ele não deixava eu fazer nada com medo dos chifres. E eu obedecia. Enquanto isso, ele lá, conquistando a Europa.

CARECA – Saquei. Acho que você nem precisa ver o filme.

PAULA – Bom, mas eu tive minha vingança. Não vou me alongar, Careca, porque sei que seu almoço é sagrado. Então, antes do último gole do chope te digo: eu tirei o escalpo do Caio. Joguei o jogo. Sabe o que eu fiz? Descobri tudo sobre a garotinha que estava com ele e a conquistei. Sim, meu amigo, pode engasgar aí com a farofa. Foi difícil, mas me transformei numa devoradora de mulheres, numa sapa imperdível e irresistível. E levei ela comigo. Roubei a amante dele.

CARECA – Isso foi sujo.

PAULA – E não foi só isso. Fiz primeiro ela terminar com ele. E depois, pedi a mão dele em casamento. O garotão lá, todo frágil com o fim do motelzinho da tarde, aceitou e parece que intimamente resolveu ficar quietinho, só comigo. Mal sabia ele que deixei o babaca gastar os tubos com cerimônia e o caramba. E na véspera, desmarquei e contei toda a história pra ele. E fui embora com a menina. Moramos um ano em Nova Iorque.

CARECA – E você gostou dessa vingança?

PAULA – Sabe de uma coisa, Careca? Acho que essa deve ser a minha obra-prima. Acredito que não farei nada tão lindamente elaborado na minha vida. Sei não, mas esse sentimento é complicado. Não há regras.

CARECA – Sinceramente espero que eu não tenha feito nada de errado com você. E nem que você tenha um bastão embaixo da mesa apontado para o meu saco.

PAULA – Rara. Saiba que tem muito amante por aí, muita gente mesmo, que despreza o poder da vingança, que acha que essa catarse jamais irá lhe atingir, que todos são razoáveis e tal. Sei. O amor não é nada razoável. Nada razoável. A vingança é um sentimento que tem que ser levado em consideração. Entendeu? Perdoar, ok. Mas se você quiser se vingar… Por que não?

CARECA – Posso escrever isso no site?

PAULA – Nem ferrando. Quer dizer, até pode. Mas faz daquele seu jeito. Muda os nomes, acrescenta umas mentiras e boa. Você é bom nisso.

CARECA – Vou encarar como um elogio. Mais um chope?

PAULA – Ora, ora. E dessa vez vamos fazer um brinde decente. E comemorar a oportunidade que todos nós temos de nos vingar daqueles que insistem em machucar nossas vidas.

CARECA – No cinema essas coisas me parecem mais seguras.

PAULA – Cada um escolhe o melhor jeito de se vingar, certo?



por Careca

Outros artigos:
« Com mulher de bigode, nem o diabo pode
Desabafos de uma mulher alfa »

Envie este artigo por e-mail

8 Comentários »

Aída
2009-10-06 10:38:48

Só uma coisa a dizer: PQP! Aliás, mais algumas: eu já li em uma matéria de revista umas outras vinganças femininas f*dásticas, tipo a mulher que fez o cara perder os dois empregos e a namorada. Tem hora que, realmente, dá vontade de não sermos razoáveis, mas, ainda continuo sendo.

Bjks!

COMENTÁRIO:
Vingar ou não vingar, eis a questão. Beijos,
Careca

 
antonio
2009-10-06 11:01:05

Taí uma mulher de bigode a que o gordo se referia no artigo dele háháháháháháháháháhá. Brincadeirinha.
Abração.

COMENTÁRIO:
Pois é. Mexe com o tipo, mexe. Abs,
Careca

 
Michelle
2009-10-06 14:44:56

Ahhhhh CACETA Viu! Queria ter coragem e criatividade para elaborar uma assim.. meu ex bem que merecia algo do tipo…
Mas fico pensando tbm, se vale a pena e até que ponto isso me faria bem! Acho que não sei fazer mal à ninguém, mesmo que as pessoas insistam em machucar a minha vida! :) Acredito na tal Lei do Retorno, desde que não seja por mim…

Um BEIJOOOO Careca!

COMENTÁRIO:
Pois é. Cada um é cada um, certo? Beijos,
Careca

 
Giuliano Nascimento
2009-10-07 01:33:41

Só queria saber uma coisa, a citada Paula por acaso assistiu “Lua de Fel” do diretor Roman Polanski?

Referências, as amo.

COMENTÁRIO:
Não duvido. Aliás, o diretor do filme supracitado, Polanski, até hoje está sendo caçado pela justiça norte-americano num caso claro de vingança tardia. Abs,
Careca

 
Ana Carolina
2009-10-10 11:49:50

Careca…

Acredito que a vingança é uma forma da pessoa não morrer dentro de vc. Pra mim, isso não gera catarse, mas uma eterna “ruminância” da dor.
Pra mim não dá.
Prefiro escancarar o fato e deixar que a vida dê o troco. Ela com certeza é mais sábia que eu. rs

Beijão

 
Leninha
2009-10-13 13:50:11

Hahaha!Adorei essa vingança da “Paula”!Puta criatividade, coragem e planejamento elaborado. Quisera eu conseguir me vingar assim dos caras que me maltratam. Mas, como ela mesmo disse “cada um escolhe o melhor jeito de se vingar”.

Beijão Careca.

 
Leandro
2009-10-23 09:44:53

Colocou o Tarantino no bolso, heim careca???

2 coelhos com uma cajadada só, mas se a prática se disseminasse os homens iriam empobrecer e as mulheres se tornariam sapas (será?).

Abraços,
L

 
Mika
2009-10-23 18:34:14

essa é das minhas!

 

Todos os comentários passam por moderação, portanto não aparecerá assim que for enviado.

Nome (obrigatório)
Email (required - never shown publicly)
 


Newsletter

Digite seu mail aqui para receber o boletim MPNM



 
Novos artigos (RSS) | Anuncie no Macho pero no Mucho | site produzido por REC

Página principal | Sexo | Drogas | Rock'n roll | "Deu" na mídia | Frases | Equipe | Enquetes | Blog | Chat